
Às vésperas do 7 de Setembro, o Brasil prepara desfiles, discursos, bandeiras e celebrações. No entanto, antes de repetir palavras sobre soberania e liberdade, precisamos ter coragem para fazer uma pergunta incômoda: que independência o povo brasileiro realmente tem para comemorar?
Independência não pode ser apenas uma lembrança histórica. Precisa estar presente na vida de quem trabalha, cria seus filhos, paga impostos e luta diariamente para sobreviver. Um país somente será verdadeiramente independente quando seu povo puder viver com segurança, dignidade, oportunidade e esperança.
Que independência possui o trabalhador cujo salário mínimo mal consegue garantir alimentação, moradia, transporte, medicamentos e contas básicas? O salário é chamado de mínimo, mas as necessidades das famílias são enormes. Para milhões de brasileiros, receber o pagamento não significa tranquilidade; significa escolher qual conta será paga e qual ficará para depois.
Também é difícil falar em liberdade quando o crime organizado avança e ocupa espaços que deveriam pertencer ao Estado. Em muitas comunidades, facções impõem regras, espalham medo, recrutam jovens e desafiam as autoridades. Quando uma família precisa mudar seus hábitos por temor dos criminosos, existe ali uma grave derrota da soberania nacional.
O país também sofre com uma divisão que deixou de ser apenas política e passou a contaminar amizades, famílias e relações de trabalho. Divergir faz parte da democracia. O problema começa quando o adversário passa a ser tratado como inimigo e o debate dá lugar ao ódio. Nenhuma nação consegue avançar quando metade de sua energia é gasta tentando destruir a outra metade.
Enquanto os brasileiros discutem entre si, muitos dos verdadeiros problemas permanecem sem solução. Empresas fecham as portas, outras recorrem à recuperação judicial e pequenos empreendedores trabalham cercados por impostos, burocracia, juros elevados e insegurança. Cada empresa que encerra suas atividades leva consigo empregos, sonhos, investimentos e parte da renda de várias famílias.
Os números oficiais também nem sempre conseguem mostrar toda a realidade do mercado de trabalho. Estar ocupado não significa, necessariamente, ter um emprego digno. Milhões vivem de trabalhos temporários, serviços sem proteção, jornadas excessivas e rendimentos insuficientes. O subemprego pode até retirar uma pessoa da estatística do desemprego, mas não retira sua angústia diante da geladeira vazia e dos boletos acumulados.
Não há independência verdadeira quando o cidadão depende de favores para conseguir aquilo que deveria receber como direito. Não há soberania completa quando faltam segurança, educação de qualidade, saúde eficiente, emprego digno e condições para quem produz continuar trabalhando.
Celebrar o Brasil não significa esconder seus problemas. Patriotismo não é cobrir a realidade com uma bandeira e fingir que tudo está bem. Amar o país é reconhecer suas dificuldades e exigir responsabilidade de quem governa, legisla, julga e administra os recursos públicos. É também compreender que a sociedade possui deveres e não pode esperar que todas as mudanças venham apenas das autoridades.
O Brasil precisa reencontrar o caminho da responsabilidade. Isso exige planejamento, equilíbrio fiscal, combate firme ao crime organizado, respeito às instituições, estímulo às empresas, qualificação profissional e políticas capazes de transformar crescimento econômico em qualidade de vida.
Também precisamos abandonar os discursos fáceis. Nenhum governo salva sozinho uma nação, assim como nenhum partido é proprietário da verdade. O país necessita de líderes que apresentem soluções, assumam responsabilidades e compreendam que o poder público existe para servir à população.
O 7 de Setembro deveria ser mais do que uma cerimônia. Deve ser um momento de reflexão e compromisso. A independência proclamada em 1822 precisa ser renovada todos os dias por meio da justiça, do trabalho, da segurança e da dignidade.
Ainda somos uma nação rica em recursos, talentos e possibilidades. Contudo, potencial desperdiçado não paga contas, não protege famílias e não alimenta quem tem fome. O Brasil precisa transformar suas riquezas em oportunidades para seu próprio povo.
Se não houver união em torno do que realmente importa, responsabilidade na administração pública e coragem para enfrentar os problemas, o risco não será apenas continuar descendo ladeira abaixo. Como temos alertado, poderemos caminhar para dentro de um vulcão social, econômico e institucional.
Ainda existe tempo para mudar o rumo. Mas o tempo dos discursos vazios está terminando. A maior homenagem à Independência será construir um Brasil no qual cada cidadão possa viver sem fome, trabalhar com dignidade, empreender com segurança e criar seus filhos sem medo.
Essa é a independência que realmente merece ser comemorada.
Editorial — Blog do Alan Ribeiro



