A economia do nosso país está em frangalhos

Crescimento fraco, queda do consumo, endividamento recorde e empresas em recuperação revelam um país financeiramente pressionado

Há uma grande diferença entre a economia apresentada nos discursos e aquela enfrentada diariamente pelas famílias, pelos trabalhadores e pelos empresários. Enquanto os indicadores oficiais ainda mostram algum crescimento, outros números revelam um país com o orçamento apertado, o consumo enfraquecido e milhares de empresas lutando para continuar funcionando.

O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, na comparação com os três meses anteriores. Embora o resultado seja positivo, representa uma desaceleração diante da expansão de 1,1% registrada no primeiro trimestre. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias caiu 0,4%, segundo o IBGE.

Esse contraste merece atenção. A economia pode crescer nas estatísticas e, ainda assim, perder força justamente onde sua realidade é mais sentida: dentro das casas. Quando as famílias reduzem o consumo, não deixam apenas de comprar produtos considerados supérfluos. Muitas passam a economizar na alimentação, no vestuário, nos medicamentos, no transporte e em outras necessidades básicas.

O comércio vende menos, a indústria recebe menos pedidos e os prestadores de serviços perdem clientes. Com o faturamento menor, empresas adiam investimentos, reduzem contratações e, em situações mais graves, dispensam trabalhadores. A queda do consumo não é apenas consequência da crise; ela também pode alimentar um novo ciclo de dificuldades.

O levantamento apresentado mostra que 82% das famílias brasileiras estão endividadas. O índice, confirmado pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da CNC, alcançou em julho de 2026 o maior patamar da série histórica.

É importante esclarecer que estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Financiamentos, empréstimos, crediários e compras parceladas no cartão também são considerados dívidas. Entretanto, quando oito de cada dez famílias possuem compromissos financeiros a vencer, sobra pouco espaço no orçamento para enfrentar uma emergência, uma doença, a perda do emprego ou qualquer aumento inesperado das despesas.

A própria CNC informa que as famílias endividadas comprometem, em média, 29,5% da renda mensal com o pagamento de dívidas. Entre as famílias de menor renda, a situação é ainda mais preocupante, porque alimentação, energia, aluguel, transporte e medicamentos já consomem grande parte dos rendimentos.

Outro indicador reproduzido na imagem aponta uma taxa média de inadimplência de 4,9% entre pessoas físicas e empresas. Por trás desse percentual existem contas atrasadas, nomes negativados, juros acumulados e empreendedores sem capital suficiente para manter seus negócios.

A inadimplência possui um efeito destrutivo quando se espalha pela economia. O consumidor que não consegue pagar perde acesso ao crédito. A empresa que não recebe enfrenta dificuldades para quitar fornecedores, salários e impostos. Os bancos, diante do risco maior, tornam os empréstimos mais caros e restritivos. O resultado é uma engrenagem que gira cada vez mais devagar.

O setor empresarial também apresenta sinais de esgotamento. A imagem cita 6.388 empresas em recuperação judicial ou extrajudicial no recorte utilizado. Os totais podem variar conforme a metodologia e a situação cadastral considerada, mas o Monitor RGF-BIZDOC confirma que milhares de companhias permanecem submetidas a processos de recuperação.

Recuperação judicial não significa falência. Trata-se de um instrumento criado justamente para permitir que empresas renegociem suas dívidas, preservem atividades e mantenham empregos. Contudo, quando milhares de negócios precisam recorrer simultaneamente a esse mecanismo, existe um sinal evidente de pressão sobre o caixa e de dificuldade para sustentar as operações.

Cada empresa que entra em recuperação provoca preocupação entre trabalhadores, fornecedores, credores e municípios que dependem da arrecadação. Pequenos fornecedores são especialmente vulneráveis, pois muitas vezes não possuem reservas financeiras para esperar meses ou anos pelo recebimento de seus créditos.

O mercado imobiliário apresenta outro alerta. Os cancelamentos de contratos envolvendo dez incorporadoras de capital aberto chegaram a R$ 2,167 bilhões no primeiro semestre de 2026 — aproximadamente os R$ 2,2 bilhões destacados na imagem. O valor representa crescimento de 27,7% sobre o mesmo período do ano anterior, conforme o levantamento sobre os distratos.

A devolução de um imóvel pode acontecer por diferentes razões, mas frequentemente indica que o comprador não conseguiu manter os pagamentos ou obter o financiamento necessário. Um contrato cancelado representa o sonho da casa própria interrompido para uma família e o retorno de uma unidade ao estoque da incorporadora.

Não se pode declarar uma recessão apenas porque o PIB cresceu pouco, nem afirmar que todos os setores estão paralisados. Existem atividades que continuam avançando, empresas que investem e trabalhadores que conquistam oportunidades. Entretanto, também não é responsável comemorar um crescimento de 0,5% ignorando a queda do consumo, o endividamento recorde e as dificuldades enfrentadas pelo setor produtivo.

A economia em frangalhos não aparece somente nos relatórios técnicos. Ela é percebida na geladeira mais vazia, no cartão estourado, no comerciante que vende menos, no empresário que adia investimentos e no trabalhador que teme perder o emprego.

Enfrentar essa situação exige mais do que discursos otimistas. O país precisa de responsabilidade fiscal, segurança jurídica, simplificação tributária, crédito responsável, estímulo ao investimento produtivo e condições para que os juros possam cair de maneira sustentável. Também são necessárias políticas eficientes de renegociação de dívidas e proteção às famílias mais vulneráveis.

O Brasil precisa voltar a crescer de uma forma que alcance a população. Crescimento verdadeiro não pode existir apenas nas planilhas oficiais. Precisa significar emprego digno, renda suficiente, empresas saudáveis, consumo consciente e esperança dentro dos lares.

Enquanto os números positivos forem utilizados para esconder o sofrimento econômico de milhões de brasileiros, continuaremos diante de uma realidade dividida: uma economia que parece resistir nos gráficos, mas que chega em frangalhos à mesa do trabalhador.

Alan Ribeiro — Jornalista e Blogueiro

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