O paulistano de 31 anos que cravou o resultado das urnas duas horas antes

Rodrigo Mahlmeister faz doutorado na Duke, organiza festa de música brasileira e se interessa por políticas públicas – no sucesso repentino, propostas de emprego e doações por Pix

Por Guilherme Guerra — São Paulo

Atualizado há 35 minutos

No domingo passado, enquanto a virada do presidente Lula ainda parecia improvável, um modelo estatístico informal que circulava na internet cravou o resultado ainda antes das 19h30, quando a apuração mal tinha ultrapassado 5% das urnas no país e ainda viraria a favor de Flávio Bolsonaro.

Pela projeção de um autor até então desconhecido, no entanto, o petista venceria o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro por 51,7% dos votos válidos. Às 21h08, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informava que Lula estava matematicamente reeleito, com um percentual que chegou a 51,79%.

O modelo estatístico foi desenhado a duas mãos pelo paulistano de 31 anos Rodrigo Mahlmeister, economista com mestrado em ciência política que se jogou nos dados para antever o resultado das eleições. Ele conseguiu a mesma façanha no primeiro turno e antecipou que Flávio terminaria o pleito à frente do petista, cravando também o resultado de 47,03% dos votos válidos – patamar que as pesquisas de opinião, mesmo as realizadas na véspera, tampouco detectaram.

O sucesso da projeção no primeiro turno viralizou no X, o antigo Twitter, e alçou Mahlmeister ao status de quase celebridade com a viralização do projeto nas redes sociais. À medida em que ele atualizava os dados nas redes sociais, os ajustes de investidores também eram frenéticos na plataforma de apostas Polymarket, que virou para 70% de projeção em Lula por volta das 19h30 após semanas de Flávio à frente.

“A repercussão depois do primeiro turno deu um peso no segundo, porque eu sabia que teria muita gente vendo aquilo e que isso criaria expectativas nas pessoas. E, se eu as frustrasse, seria o pior dia da minha vida, colocando a minha reputação em risco”, diz Mahlmeister ao Pipeline.

Cientista político Rodrigo Mahlmeister faz doutorado na Universidade Duke, nos EUA — Foto: Divulgação

Outros projetos estatísticos similares surgiram na véspera do segundo turno, mas eles não foram nem tão precisos nem tão rápidos em cravar o resultado como o modelo desenvolvido por ele, que estima que tenha sido visualizado por mais de um milhão de pessoas.

Quando começou a estimar o resultado, logo depois do início da apuração às 19h, ele achou que o modelo tinha falhado porque dava Lula na dianteira. Fez ajustes, e em outro cálculo o petista também saía na frente. O economista esperou dar 2% da apuração para liberar a projeção para o público, mostrando o incumbente à frente.

“Foi muito tenso, eu estava em surto com todo mundo me mandando mensagem. Eu só fiquei tranquilo com o acerto lá pelos 20% de apuração das urnas”, diz ele. “Eu deveria ter confiado mais no meu método, porque poderíamos ter divulgado antes de 1%, e com percentual muito próximo do final.”

Além disso, o modelo desenvolvido consegue antecipar em gráfico onde podem ocorrer possíveis viradas na votação, a partir da ordem de apuração e do histórico de voto das regiões. No domingo, a projeção previa duas viradas no padrão de votação: por volta dos 20% das urnas, Flávio Bolsonaro ultrapassaria o presidente Lula, que recuperaria a liderança por volta de 60% da apuração das urnas. Mais uma vez, o modelo estava correto.

O modelo desenvolvido por Mahlmeister é científico. Grosso modo, o economista diz que montou uma base de dados das eleições de 2022 e 2026 para comparar cada seção do Brasil. Conforme as urnas vão sendo apuradas em tempo real, ele identifica mudanças no padrão de votação e projeta essas variáveis em seções com apuração pendente e de características similares como as sócio-econômicas. Por exemplo, a perda de votos de Lula no interior do país, principalmente em regiões do agro, tornou-se uma variável para a projeção em cidades com mesmo perfil.

Por volta das 19h58 de domingo 25, com quase 50% das urnas apuradas, projeção de Mahlmeister apontava que Lula venceria com 51,5% dos votos válidos — Foto: Reprodução

A base do projeto está nas regressões lineares, diz ele, em referência ao modelo de análise bastante utilizado nos cursos de econometria. Além disso, o paulistano, que sabe programar desde os 21 anos, utilizou o Claude para ajudar no refinamento do código e diminuir a margem de erro de 3% para menos de 0,1%. Com ajuda de inteligência artificial, o trabalho levou três dias para ser concluído a tempo do primeiro turno.

“Não se trata de eu ser um gênio da estatística, até porque nem tenho bagagem avançada nisso. Tenho familiaridade, mas é o que qualquer estudante de economia sabe”, conclui.

Mahlmeister não sabe dizer de onde veio a inspiração para o modelo, que sequer possui um nome e deve ser tema de um artigo científico escrito pelo economista. Como o Brasil é o único país do mundo com esse sistema de votação integralmente digitalizado, esse tipo de projeção é difícil de ser reproduzida em outros países. Além disso, ele diz que a criação só funciona para a apuração em tempo real das urnas e não serve como boca de urna ou como pesquisa para antecipar a intenção de voto. Aplicar o método para eleições municipais ou estaduais pode ser difícil, mas é possível.

O modelo, porém, esbarra em uma dificuldade. Como trabalha analisando padrões de votação, o surgimento de um candidato desconhecido ou sem histórico de votos pode diminuir a eficácia do cálculo de comportamento eleitoral de cada seção, especialmente no primeiro turno, quando as informações são mais escassas. Ou seja, quanto maior a polarização e a calcificação do voto, melhor para a precisão. Justamente o cenário observado em 2026, quando foi repetida pela terceira vez uma disputa entre petismo e bolsonarismo.

“Para 2030, eu não acho que vai ter mudanças importantes na esquerda pós-Lula. Não vai ser inaugurado um novo padrão de voto, que é basicamente o mesmo desde 2006. Quatro anos não dá tempo para isso se reconfigurar”, avalia. O economista não é ligado a nenhum partido político.

Apesar do sucesso repentino, que lhe rendeu milhares de reais em doações em Pix e algumas propostas de emprego, Mahlmeister diz que é hora de voltar o foco para o doutorado. Desde 2023, ele estuda ciência política na Universidade Duke, na Carolina do Norte, nos EUA, e planeja entregar a tese em 2028. Ele pesquisa como políticas sociais podem ser manipuladas por governantes para tentar ganhar eleições.

“Valeu a pena vir para a Duke. Não gosto de morar fora do Brasil, sempre volto a cada semestre e quero voltar de vez logo. Mas acredito que até essa exposição repentina que tive seria outra se eu estivesse na USP”, diz ele, em referência aos benefícios do carimbo de uma universidade estrangeira no currículo. Ele graduou-se em economia na FEA em 2018 e depois formou-se mestre em ciência política na FFLCH em 2021.

Nos planos de retorno ao Brasil, as possibilidades incluem tentar um pós-doutorado, entrar em uma consultoria política ou até entrar em uma empresa de pesquisa de opinião. Até lá, pretende continuar com uma festa de funk e pop brasileiro que organiza em São Paulo a cada trimestre, a Bagatela. A próxima edição é em dezembro.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

Alan inicia seus trabalhos com o único objetivo, trazer a todos informação de qualidade, com opinião de pessoas da mais alta competência em suas áreas de atuação.

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