Goiás concentra quase 19% dos pedidos de recuperação judicial do agronegócio no Brasil

No cenário nacional, houve uma queda de 20,7% em comparação com o mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 565 solicitações. Em relação ao primeiro trimestre deste ano, que registrou 474 pedidos, a redução foi de 5,5%.

Goiás registrou 84 pedidos de recuperação judicial no agronegócio durante o segundo trimestre de 2026, segundo dados divulgados pela Serasa Experian. Com esse resultado, o estado ficou na segunda posição do ranking nacional, atrás apenas de Mato Grosso, que contabilizou 107 solicitações. Em todo o país, foram registrados 448 pedidos entre abril e junho, dos quais quase 19% tiveram origem em Goiás.

No cenário nacional, houve uma queda de 20,7% em comparação com o mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 565 solicitações. Em relação ao primeiro trimestre deste ano, que registrou 474 pedidos, a redução foi de 5,5%.

Goiás também ocupa posições de destaque quando os pedidos são analisados conforme a natureza jurídica dos produtores. Segundo a Serasa Experian, entre as pessoas físicas, o estado registrou 46 solicitações no segundo trimestre, o equivalente a 23,4% dos 197 pedidos apresentados em todo o país.

Mais uma vez, Goiás ficou atrás apenas de Mato Grosso, que registrou 49 pedidos. Na sequência, aparecem Minas Gerais (23), São Paulo (22) e Paraná (16). Entre as pessoas jurídicas, Goiás contabilizou 22 solicitações, ocupando a terceira posição, atrás de Mato Grosso (54) e São Paulo (28).

O advogado e presidente da Câmara de Apoio à Empresa em Crise da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg), Filipe Denki, explica que, apesar da redução no número de solicitações, ainda é cedo para considerar o resultado um sinal de recuperação financeira dos produtores rurais.

Segundo ele, essa foi a primeira queda registrada desde 2022, após três anos consecutivos de crescimento nos pedidos de recuperação judicial. O advogado destaca que a redução representa uma desaceleração, mas não necessariamente uma mudança na situação econômica do setor.

“A primeira observação que faço em relação à queda desse número é que foi a primeira desde 2022. A gente vinha há três anos, trimestre após trimestre, com aumento de pedidos de recuperação judicial. Então, vimos uma pequena desaceleração”, explicou.

Denki avalia que a entrada de receitas provenientes da safra pode estar entre os fatores que contribuíram para a queda. Isso porque muitos produtores aguardam os recursos obtidos com a comercialização da produção para avaliar a capacidade de quitar ou renegociar compromissos financeiros.

Outro fator apontado pelo advogado é a maior disposição das instituições financeiras e dos credores para renegociar dívidas fora do ambiente judicial, o que pode reduzir a necessidade de recorrer à Justiça.

“É muito comum o produtor rural aguardar as primeiras receitas da safra para verificar se, de fato, com o valor obtido, tem condições de pagar ou negociar suas dívidas. Também percebemos uma maior flexibilização das instituições financeiras e dos credores para renegociações extrajudiciais”, afirmou.

Apesar da redução, o advogado considera que o número de pedidos permanece elevado, especialmente quando comparado ao volume registrado no ano passado, que atingiu um recorde.

“O volume ainda é muito grande. Se analisarmos o comparativo, está quase em uma estabilização em relação ao ano passado, que já foi recorde de pedidos de recuperação judicial. Então, ainda é precipitado definir isso como um indicativo significativo de melhora”, ponderou.

Recuperação judicial não significa falência

Durante a entrevista ao Jornal Opção, o advogado ressaltou que um pedido de recuperação judicial não representa necessariamente a falência de uma propriedade ou empresa rural. Segundo ele, trata-se de um instrumento jurídico que permite ao produtor em dificuldades financeiras buscar a reorganização de suas dívidas, com acompanhamento da Justiça.

“A recuperação judicial é uma ferramenta que pode ser utilizada pelo produtor rural em dificuldade financeira. Não é sinônimo de fracasso, não é a falência do produtor, mas demonstra que ele passa por um momento de dificuldade e precisa de auxílio judicial para renegociar suas dívidas junto aos credores”, explicou.

Denki esclarece que a falência representa uma situação distinta, caracterizada pela inviabilidade da continuidade da atividade econômica, conforme os critérios previstos na legislação.

“A falência é o mais grave dos cenários possíveis. É quando o produtor não tem mais condições de se recuperar e precisa declarar perante a Justiça que não consegue mais pagar suas dívidas”, acrescentou.

Juros altos e custos de produção

Entre os principais fatores que levam produtores rurais a recorrer à recuperação judicial, Filipe Denki aponta o alto custo do crédito como um dos mais preocupantes. Segundo ele, a dependência de financiamentos bancários para custear as atividades torna o setor especialmente vulnerável às taxas de juros elevadas.

“A maior dor hoje, com certeza, é a alta taxa de juros. O produtor rural brasileiro depende de subsídio, depende de financiamento bancário para manter suas operações e fomentar suas atividades. Pegar recursos no banco a uma taxa de juros tão elevada é um desafio”, destacou.

O encarecimento dos insumos e dos custos operacionais, associado à redução dos preços de importantes commodities agrícolas, como soja, milho e algodão, também contribui para o cenário de dificuldades. Segundo o advogado, esse desequilíbrio reduziu as margens de lucro e comprometeu a capacidade dos produtores de cumprir seus compromissos financeiros.

“O segundo grande desafio é o custo da produção, que aumentou muito nos últimos anos. Isso achatou a margem de lucro. Agora está havendo uma recomposição dos preços das principais commodities, como milho, soja e algodão, mas ainda não nos patamares que vimos há alguns anos”, afirmou.

Falta de planejamento financeiro

Além dos fatores externos, Denki avalia que parte das dificuldades enfrentadas pelo agronegócio está relacionada à falta de planejamento financeiro e de profissionalização da gestão das propriedades rurais.

Segundo o advogado, muitos produtores movimentam quantias expressivas, mas não possuem controle detalhado das receitas, despesas e compromissos assumidos. Essa falta de organização pode comprometer decisões relacionadas à contratação de financiamentos, à realização de investimentos e à expansão das atividades.

“Há uma meia-culpa que os produtores rurais precisam fazer, porque existem fatores externos à crise, como mencionamos, mas também fatores internos, muitas vezes relacionados ao desconhecimento do próprio negócio”, avaliou.

O especialista acrescenta que a ausência de informações financeiras precisas pode levar à contratação de empréstimos ou à realização de investimentos sem uma avaliação adequada da capacidade de pagamento.

“O produtor rural mexe com um volume de dinheiro muito alto, porque o custo de uma produção é elevado. Muitos não têm clareza do que possuem de receita e despesa, e isso dificulta a tomada de decisão. Dentro desse cenário desafiador, contribui para o agravamento da crise”, explicou.

Perspectivas para os próximos anos

Ao avaliar as perspectivas para os próximos anos, Filipe Denki considera que o agronegócio brasileiro ainda poderá enfrentar um período de dificuldades financeiras, embora demonstre confiança na capacidade de recuperação do setor.

Segundo ele, as crises fazem parte dos ciclos econômicos, e o agronegócio já enfrentou outros momentos de instabilidade. No entanto, avalia que o cenário atual está entre os mais graves dos últimos anos, especialmente pela combinação de custos elevados, endividamento e adversidades climáticas.

“A gente tem visto, safra após safra, recordes de colheita, por conta da eficiência tecnológica que o Brasil tem alcançado, produzindo cada vez mais em menos espaço. Mas, por outro lado, o setor sofreu com efeitos climáticos, como o El Niño”, explicou.

Apesar dos desafios, o advogado acredita que o setor conseguirá superar o período de dificuldades, mas alerta para a necessidade de maior cautela na gestão financeira das propriedades.

“Vai superar a crise, ela vai passar. Não é a primeira crise que o agro viveu. Talvez, no histórico recente, tenha sido a mais grave, mas acredito que sairá fortalecido desse período. O produtor rural vai precisar ter mais cautela nos próximos dois anos”, concluiu.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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