
Uma campanha presidencial se enfraquece quando o candidato precisa explicar repetidamente o que acabou de dizer. É nesse terreno que o chamado “efeito Biden” merece ser discutido na campanha de Lula: o risco de a experiência, apresentada como garantia de segurança, perder espaço para uma percepção de desgaste.
Joe Biden desistiu da reeleição em 21 de julho de 2024, depois que seu desempenho no debate de 27 de junho ampliou as dúvidas sobre sua capacidade de sustentar a candidatura e intensificou a pressão de aliados por sua saída. A crise mostrou como questões sobre o próprio candidato podem dominar uma disputa e comprometer a mensagem de seu partido.
O paralelo com Lula exige precisão. Idade e gafes não autorizam diagnósticos sobre a saúde de ninguém. A comparação que proponho é política: envolve confiança pública, clareza, julgamento e renovação. Quem pede mais quatro anos de poder deve aceitar uma avaliação rigorosa de suas palavras e de sua atuação.
O histórico é extenso. Em julho de 2026, levantamento do Poder360 contabilizou 170 falas classificadas pelo veículo como incorreções, distrações ou declarações controversas desde o início do terceiro mandato, incluindo 19 no primeiro semestre daquele ano. A contagem reúne ocorrências de naturezas diferentes; não significa que todas sejam lapsos de memória.
Entre as confusões de nomes, Lula chamou Emmanuel Macron de Sarkozy em março de 2024, corrigindo-se após intervenção dos presentes. Em fevereiro de 2026, trocou Dilma Rousseff por Irma Passoni ao recordar a eleição de 2014, citando Dilma corretamente logo depois. Em agosto, confundiu Marisa Letícia com Janja e também corrigiu o nome. São equívocos documentados que oferecem material para seus adversários questionarem sua comunicação.
Os erros numéricos também se repetiram. Em maio de 2023, mencionou 700 milhões de brasileiros mortos pela Covid-19, quando o número estava na casa dos 700 mil. Em julho daquele ano, falou em 186 milhões de moradias cuja construção seria retomada, em vez de 186 mil. Em abril de 2024, citou 12,3 milhões de crianças mortas em Gaza, novamente confundindo milhares com milhões. Discursos presidenciais sobre tragédias e políticas públicas exigem cuidado com a dimensão dos números.
Outras declarações merecem cobrança pelo conteúdo. Em março de 2023, ao condenar a escravidão, Lula apresentou a miscigenação como “uma coisa boa” resultante daquele processo. Em julho, manifestou gratidão à África pelo que foi produzido durante o período escravista. Em fevereiro de 2024, associou uma jovem negra ao “batuque”. Na minha avaliação, essas formulações comprometem a homenagem pretendida ao reproduzir estereótipos ou atribuir um resultado positivo a uma violência histórica.
No mesmo conjunto de discursos, houve comentários sobre o peso de Flávio Dino, a associação de transtornos mentais a “desequilíbrio de parafuso” e a declaração de que o público o veria sempre bonito, sem andador ou muletas, depois de uma cirurgia no quadril. Essas falas receberam críticas por seu caráter considerado gordofóbico ou capacitista. O cargo exige respeito também nas brincadeiras.
Em maio de 2024, Lula disse que não tinha noção de que havia tanta gente negra no Rio Grande do Sul. Em agosto, ao defender oportunidades de formação para nordestinos, contrapôs a exportação de empregadas domésticas à de “pessoas importantes”, citando profissões de nível superior. O objetivo declarado de ampliar oportunidades não elimina o problema da escolha das palavras: empregadas domésticas e trabalhadores da construção também são pessoas importantes.
A relação entre discurso e respeito às mulheres traz outros exemplos. Em julho de 2024, enquanto condenava a violência doméstica e comentava uma pesquisa sobre agressões após jogos de futebol, Lula acrescentou: “Se o cara é corintiano, tudo bem”. Em março de 2025, vinculou a escolha de Gleisi Hoffmann para a articulação política à expressão “mulher bonita”. A meu ver, esse tipo de comentário enfraquece a seriedade que o tema exige.
Na segurança pública, houve episódios com grande potencial de desgaste. Em outubro de 2025, ao discutir a relação entre consumo e tráfico de drogas, Lula afirmou que traficantes também seriam vítimas dos usuários. Depois, reconheceu a formulação inadequada e reafirmou sua posição contra o crime organizado. Em março de 2026, na sanção da Lei Antifacção, omitiu a expressão “combate ao” e falou em um Brasil respeitado “no crime organizado”. O contexto era de enfrentamento às facções; o lapso comprometeu a mensagem que pretendia transmitir.
Há ainda controvérsias que devem ser discutidas como posições políticas: a atribuição de responsabilidade pela guerra tanto à Rússia quanto à Ucrânia, em 2023; o tratamento das acusações de autoritarismo na Venezuela como “narrativa”; e a comparação das ações de Israel em Gaza com as atrocidades de Hitler, em 2024, que provocou uma crise diplomática. Nesse campo, Lula responde pelo julgamento político de suas declarações.
O arquivo de tropeços antecede o atual mandato. Em 2000, fez uma piada de teor homofóbico sobre Pelotas. Em maio de 2020, ao defender a importância do Estado diante da pandemia, afirmou que “ainda bem” que a natureza havia criado o coronavírus. Depois, pediu desculpas e reconheceu a frase infeliz. A existência desses registros antigos também impede atribuir automaticamente os episódios recentes ao envelhecimento.
Na campanha de 2026, a Agência Lupa identificou declarações erradas ou exageradas sobre crescimento do PIB, enfrentamento da fome e feminicídio. A cobrança é objetiva: afirmações de campanha precisam se sustentar em dados verificáveis, especialmente quando tratam da vida e da segurança da população.
Na minha avaliação, o efeito político desse conjunto pode se aproximar da lição deixada pela candidatura de Biden: uma trajetória longa não garante confiança permanente. Cada explicação adicional consome espaço que poderia ser dedicado a propostas. A repetição facilita a formação de uma imagem de desgaste, mesmo quando os episódios têm gravidades e causas diferentes.
A experiência deve ajudar um governante a ouvir críticas, corrigir erros e preparar novas lideranças. Quando passa a justificar uma permanência indefinida, transforma-se em argumento de acomodação. O eleitor pode reconhecer realizações anteriores e, ao mesmo tempo, concluir que outro projeto merece ser testado. Democracia exige essa liberdade de julgamento.
Lula governou de 2003 a 2010 e voltou à Presidência em 2023. Dilma Rousseff, sua sucessora e integrante do mesmo projeto político, teve um mandato completo e um segundo interrompido pelo impeachment em 2016. A influência de Lula nesse período integra o debate sobre a continuidade do lulismo; a responsabilidade formal por aqueles governos foi de Dilma.
O Brasil precisa escolher seu lado: manter alguém que já ocupa seu terceiro mandato e cuja influência política atravessou também os dois governos de Dilma Rousseff, o segundo interrompido, ou conceder oportunidade a outro.
Alan Ribeiro



