
José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, fundou a empresa que daria origem à JBS, maior produtora de proteína animal do mundo
Um homem nascido em uma pequena fazenda no interior de Minas Gerais transformou um açougue em um império global da carne. Décadas depois, a empresa fundada por José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, tornou-se a maior produtora de proteína animal do mundo e tem um dos seus principais braços com sede em Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina.
Aos 92 anos, o empresário relembrou essa trajetória em entrevista ao podcast Giro do Boi, do Canal Rural, anos depois de repassar o controle da empresa aos filhos Joesley e Wesley Batista. Na conversa, contou como aproveitou oportunidades de mercado, apostou na qualidade da carne e construiu uma reputação baseada no crédito e na pontualidade até transformar um pequeno negócio familiar em uma gigante global.
José Batista Sobrinho nasceu em 13 de dezembro de 1933, em Carmo do Rio Claro, no Sul de Minas Gerais. Filho de pequenos produtores rurais, cresceu em uma família de oito irmãos até que, em 1944, o pai decidiu deixar o interior mineiro em busca de novas oportunidades em Goiás. A mudança tinha um objetivo claro: encontrar terras mais acessíveis para garantir um futuro melhor aos filhos, já que a pequena propriedade da família não seria suficiente para todos.
Depois de servir ao Exército entre 1952 e 1953, Zé Mineiro voltou para Anápolis decidido a trabalhar. Ao lado de um dos irmãos, começou comprando e vendendo gado com um jipe adquirido pelo pai. A atividade marcou o início de uma trajetória que, décadas depois, transformaria um pequeno negócio familiar em uma das maiores empresas de alimentos do mundo.
O açougue que virou escola para os negócios
No começo da carreira, Zé Mineiro percebeu que negociava uma mercadoria cujo valor dependia do peso, mas ainda não dominava esse conhecimento. Para entender melhor o rendimento dos animais e aprimorar as negociações, abriu um açougue chamado Casa de Carne Mineira. O estabelecimento acabou se tornando uma verdadeira escola para o empresário.
Foi trabalhando com as próprias mãos que aprendeu a avaliar peso, rendimento e qualidade da carne. A experiência o ajudou a entender que o sucesso do negócio começava muito antes da venda, na escolha criteriosa dos animais. Segundo contou, fazia questão de comprar gado das melhores fazendas, estratégia que rapidamente o destacou entre os marchantes, profissionais responsáveis pela compra, abate e comercialização de bovinos.
Brasília abriu caminho para a expansão
A construção de Brasília representou a primeira grande virada na história da empresa. Enquanto muitos fornecedores comercializavam carne com osso, Zé Mineiro enxergou uma oportunidade de agregar valor ao produto oferecendo carne desossada aos milhares de trabalhadores que erguiam a nova capital federal.
A operação, entretanto, exigia criatividade. Sem câmaras frigoríficas ou sistemas modernos de refrigeração, os animais eram abatidos durante a noite para aproveitar as temperaturas mais baixas, garantindo que a carne chegasse em boas condições ao destino. Para o empresário, aquele período foi marcado por muitas dificuldades, mas também pelo crescimento acelerado do negócio.
A Friboi nasceu da confiança
Por volta de 1970, surgiu oficialmente a marca Friboi, nome sugerido por um amigo da família e que faz referência à expressão “Frigorífico de Boi”. Embora a marca tenha ganhado notoriedade nacional anos depois, o início foi marcado pela escassez de recursos financeiros.
Segundo Zé Mineiro, o patrimônio mais importante da empresa nunca foi o dinheiro, mas a credibilidade conquistada junto a fornecedores e parceiros comerciais. Ele afirmou que a pontualidade nos pagamentos e o compromisso com a palavra foram determinantes para que a empresa conseguisse crescer mesmo sem capital para realizar compras à vista. “Nunca tivemos dinheiro para comprar nada à vista. O que nós tínhamos era crédito”, resumiu.
O primeiro frigorífico e o salto da JBS para o mundo
O primeiro frigorífico próprio foi adquirido em 1969, em Formosa (GO). A compra permitiu que a empresa obtivesse o Serviço de Inspeção Federal (SIF), certificação indispensável para comercializar carne em outros estados. Até então, boa parte das vendas estava concentrada na região de Goiás e no abastecimento de Brasília.
Com autorização para ampliar o mercado, novas unidades passaram a ser incorporadas ao grupo, impulsionando o crescimento da empresa durante as décadas seguintes e preparando o caminho para um passo ainda maior: a internacionalização.
A expansão internacional começou em 2007, com a compra da Swift na Argentina. Pouco depois, a empresa expandiu as operações para os Estados Unidos e ampliou sua presença na Austrália, consolidando uma estratégia que transformaria a JBS em multinacional presente em 190 países.



