O peru de Natal da Eleição

Toda eleição presidencial começa com a promessa solene de que, desta vez, o debate será elevado, programático, civilizado e voltado para o futuro do país. É uma tradição nacional tão respeitada quanto a promessa de começar a dieta na segunda-feira. Em poucas semanas, ninguém mais fala de programa, o futuro é adiado, a civilidade pede licença e cada grupo político passa a escolher não apenas o candidato que deseja eleger, mas também — e principalmente — o adversário que prefere enfrentar. É aí que a política deixa de ser catecismo e volta a ser política.
Lula aparece nas pesquisas como líder, Flávio Bolsonaro ocupa o espaço principal da direita e Ronaldo Caiado tenta abrir passagem numa estrada congestionada pela polarização. Nos bastidores, dirigentes partidários fazem contas, conversam, negam que conversaram e depois conversam novamente para desmentir o desmentido anterior. Todos juram estar preocupados com o país. Alguns, inclusive, conseguem dizer isso sem rir.
Os números oferecem uma fotografia curiosa. Flávio começa o primeiro turno com votação muito superior à de Caiado, carregado pela força do sobrenome, pela fidelidade do eleitor bolsonarista e por uma estrutura política já montada. Caiado, por sua vez, aparece pequeno na largada, mas melhora sensivelmente quando o cenário é reduzido a um confronto direto com Lula.
Essa diferença entre primeiro e segundo turno não é uma contradição. É justamente o coração do problema. No primeiro turno, o eleitor escolhe por identidade. No segundo, escolhe também por rejeição, comparação, medo, conveniência e sobrevivência política. É o momento em que muita gente deixa de votar em quem ama para votar em quem suporta.
Flávio tem uma grande vantagem inicial: já é conhecido. Mas possui também um inconveniente igualmente grande: já é conhecido. Ele herda a base eleitoral de Jair Bolsonaro, mas herda junto a rejeição, a polarização, os conflitos e todo o arquivo emocional acumulado nos últimos anos. Sua candidatura dispensa apresentação. Também dispensa boa parte do trabalho de desconstrução, porque o adversário já conhece o roteiro, as cenas, os personagens e até os intervalos comerciais.
Para Lula e o PT, esse cenário é quase doméstico. É uma eleição disputada numa casa onde sabem onde ficam os móveis, onde range o assoalho e em qual gaveta estão guardados os fantasmas. Lula contra um Bolsonaro não é apenas uma disputa eleitoral. É uma franquia política. Tem público fiel, personagens conhecidos, falas previsíveis e reprises garantidas. O país pode até dizer que está cansado da polarização, mas continua comprando ingresso.
Caiado representa outro tipo de problema. Ele não chega ao segundo turno carregando o mesmo volume de rejeição. Pode apresentar resultados de governo, falar de segurança pública, responsabilidade fiscal, organização administrativa e combate ao crime. Em vez de oferecer ao PT a confortável disputa entre democracia e bolsonarismo, tentaria impor uma comparação entre governos, gestores e resultados. E toda campanha prefere enfrentar um adversário cuja derrota já possui manual.
Flávio chega com um manual completo, ilustrado e distribuído em capítulos desde 2018. Caiado obrigaria o PT a escrever outro. É por isso que, superado o primeiro turno, a tese de que Caiado teria maiores chances de derrotar Lula não nasce apenas dos percentuais registrados hoje. Ela surge da combinação entre rejeição, capacidade de expansão, perfil político, agenda eleitoral e possibilidade de atrair o eleitor que não deseja Lula, mas tampouco pretende participar novamente da guerra sentimental entre petismo e bolsonarismo.
A questão não é saber quem possui mais votos agora. A questão é descobrir quem consegue receber os votos que ainda não são seus.
Flávio tem um piso alto. Caiado pode ter um teto mais distante. A dificuldade de Caiado é chegar ao segundo turno. A dificuldade de Flávio é o que fazer depois de chegar.
Se ninguém conseguir quebrar a polarização na primeira etapa, Flávio se transforma no adversário ideal de Lula. É o peru de Natal do PT. Durante o primeiro turno, deve ser tratado com o cuidado devido às grandes ocasiões. Não convém abatê-lo cedo demais. É preciso alimentá-lo, protegê-lo de concorrentes perigosos e garantir que chegue saudável à data principal. Um ataque excessivo pode enfraquecê-lo e abrir espaço para alguém menos conveniente. O perigo não é Flávio crescer. O perigo é Caiado crescer no lugar dele. Quem já criou peru entende a lógica. Ninguém alimenta um peru pensando no futuro do peru. Alimenta pensando no Natal.
A ave, naturalmente, interpreta tudo errado. Recebe ração melhor, atenção especial, água fresca e um tratamento quase cerimonial. Aos poucos, começa a acreditar que finalmente reconheceram seu valor. Desfila pelo terreiro com a segurança de quem imagina ter sido promovido a sócio da fazenda. Na verdade, apenas se tornou indispensável ao cardápio.
Nesse cenário, o PT não precisa ajudar Flávio de forma explícita. Seria grosseiro demais. Basta escolher com inteligência quem deve ser atacado, quem merece silêncio e quem precisa ser apresentado como ameaça. A política moderna não exige necessariamente elogiar o adversário preferido. Às vezes, basta deixar que ele continue andando enquanto se colocam obstáculos no caminho dos demais.
Caiado, caso comece a ameaçar a vaga de Flávio, passaria a ser um problema muito antes de se tornar um adversário formal. Seria necessário enquadrá-lo, nacionalizar suas contradições, reduzir sua imagem de gestor, questionar seus resultados e impedir que ele se transforme na alternativa viável para o eleitor cansado dos dois polos.
Flávio, nesse mesmo período, poderia permanecer sob fogo controlado. Ataques suficientes para manter a militância mobilizada, mas não tão fortes a ponto de eliminá-lo da final.
Pesquisa mede preferência. Estratégia mede conveniência. São disciplinas completamente diferentes. O eleitor pergunta quem está crescendo. Os partidos perguntam quem não pode crescer. A diferença parece pequena na frase, mas costuma ser enorme na urna.
Chegada a véspera, porém, termina o carinho.
Confirmado no segundo turno, o peru deixa de ser protegido e passa a ser servido. Tudo aquilo que foi guardado durante meses aparece de uma vez: investigações, discursos antigos, relações familiares, declarações controversas, crises do governo Bolsonaro e qualquer lembrança capaz de reativar o medo de retorno ao passado.
A campanha muda de cardápio.
Até o primeiro turno, interessa ao PT definir o adversário. No segundo, interessa destruí-lo eleitoralmente.
Esse é o cinismo elementar da política: o mesmo candidato que ontem precisava sobreviver hoje precisa desaparecer.
Na política, convicção é aquilo que se sustenta até surgir uma composição melhor.
A grande disputa da oposição, portanto, talvez nem seja inicialmente contra Lula. É uma disputa interna para decidir quem terá o privilégio de enfrentá-lo. Flávio possui a força necessária para chegar. Caiado, caso chegue, pode apresentar melhores condições para vencer. E essa diferença explica boa parte das movimentações, das conversas e dos sorrisos cuidadosos vistos nos bastidores.
O PT sabe que não existe adversário fraco numa eleição presidencial. Mas sabe também que existem adversários mais confortáveis. Flávio mantém a eleição no terreno conhecido da polarização. Caiado poderia deslocá-la para um confronto sobre segurança, economia, gestão e eficiência do Estado — justamente os temas que tendem a pesar quando o eleitor abandona a paixão e começa a fazer contas.
Por isso, o verdadeiro desafio de Caiado não é apenas convencer o eleitor. É sobreviver ao interesse convergente daqueles que preferem que a final seja disputada entre os dois polos tradicionais. Lula deseja vencer. Flávio deseja chegar. Caiado precisa romper a porta antes que ela seja fechada.
Enquanto isso, os partidos publicam notas sobre diálogo, responsabilidade e construção coletiva. Nos bastidores, calculam quem deve ser fortalecido, quem precisa ser enfraquecido e qual adversário oferece a derrota mais segura.
É assim que funciona.
No discurso, todos querem enfrentar o candidato mais forte. Na prática, passam o ano inteiro procurando o mais conveniente.
E, quando dezembro eleitoral chegar, alguém descobrirá que foi convidado para a ceia não como convidado de honra, mas como prato principal.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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