PF aponta uso de policiais por grupo familiar ligado ao PCC em esquema que movimentou R$ 500 milhões em MS

Operação Ifrit investiga tráfico internacional, lavagem de dinheiro e participação de agentes públicos. Delegado é suspeito de desviar cerca de duas toneladas de cocaína apreendida; defesa afirma que ainda não teve acesso integral às provas.

Uma investigação da Polícia Federal e da Receita Federal aponta que uma organização criminosa comandada por um núcleo familiar na fronteira de Mato Grosso do Sul teria contado com policiais para proteger suas atividades e abastecer o tráfico com cocaína retirada de apreensões. O grupo, associado pelos investigadores ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC), teria movimentado mais de R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos. A ofensiva, denominada Operação Ifrit, foi deflagrada na quarta-feira, 4 de novembro.

Segundo a Receita Federal, a estrutura seria liderada por três irmãos, com participação de filhos e outros parentes. Haveria divisão de tarefas entre responsáveis pelo comando, pelas finanças, pelo transporte e pela segurança armada. A imprensa sul-mato-grossense identificou integrantes da família Haidar entre os principais alvos. Conforme o Campo Grande News, o empresário Adel Hassan Haidar, de Ponta Porã, é apontado pela investigação como uma das lideranças.

A suspeita de colaboração policial é um dos pontos centrais do caso. Além de fornecer informações sigilosas, agentes públicos teriam protegido integrantes da organização e apoiado ações criminosas. A apuração alcança policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal. A participação atribuída a cada investigado depende da análise das provas reunidas no inquérito.

Entre os alvos está o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que chefiou a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), em Campo Grande. Segundo informações publicadas pelo UOL, ele é suspeito de participar do desvio de aproximadamente duas toneladas de cocaína mantidas no depósito da unidade. A comercialização desse material teria rendido cerca de R$ 15 milhões.

O mecanismo descrito na reportagem envolvia a substituição da cocaína apreendida por material adulterado com substâncias como amido de milho e fermento. Essa mistura seria posteriormente encaminhada à destruição, enquanto a droga desviada voltaria ao mercado ilegal. A suspeita, portanto, alcança o uso da própria estrutura de repressão ao narcotráfico para abastecer organizações criminosas.

O rastreamento financeiro revelou outra dimensão do esquema. Conforme a Receita, os valores circulavam por contas dos investigados, operadores financeiros, empresas de fachada e negócios simulados. Foram identificados indícios de utilização de pessoas para ocultar os verdadeiros beneficiários e de manobras destinadas a disfarçar a origem e o destino dos recursos. A apuração combinou dados bancários, fiscais, patrimoniais e de comunicações, obtidos mediante autorização judicial.

Os R$ 500 milhões representam a movimentação financeira identificada pelos investigadores no período analisado. Esse dado exige tratamento diferente da estimativa de R$ 15 milhões atribuída à venda da cocaína desviada. Cada cifra descreve uma dimensão da apuração: o fluxo financeiro relacionado ao grupo e o rendimento estimado de uma prática específica investigada.

A atuação descrita pela PF ultrapassava a fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Drogas e armas seriam adquiridas na Bolívia, no Peru e no Paraguai para abastecer redes brasileiras. Parte dos entorpecentes também teria como destino a Europa, especialmente Espanha e Portugal. A investigação apura ainda sequestros, torturas, atentados e homicídios, além do uso de veículos blindados e armamento para intimidar rivais e exercer controle territorial.

A Justiça Federal autorizou 76 mandados de busca e apreensão, 25 prisões preventivas e uma prisão temporária, além de três medidas de monitoramento eletrônico e do afastamento de três policiais civis. A operação alcançou Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. No balanço divulgado pela PF em 4 de novembro, haviam sido cumpridos 16 mandados de prisão, além de registradas três prisões em flagrante.

O patrimônio dos investigados também entrou na mira. Segundo o UOL, foram determinados o sequestro judicial de cerca de 160 imóveis e de mais de 150 veículos, além do bloqueio de até R$ 300 milhões em contas bancárias. Esses números correspondem às medidas determinadas pela Justiça; a reportagem não apresenta esse limite de bloqueio como valor integralmente localizado ou recuperado.

A investigação federal se soma a apurações estaduais sobre desvio de entorpecentes. Em 24 de setembro, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul deflagrou a Operação Infiltrados. Segundo o órgão, policiais deixavam de registrar parte das drogas apreendidas ou retiravam material dos depósitos das delegacias para repassá-lo a traficantes. Na ocasião, o Gaeco informou o cumprimento de prisões preventivas contra nove policiais civis, dois militares e um policial penal.

Nesta quinta-feira, 5 de novembro, o Gaeco deflagrou a Operação Infiltrados II, com nove policiais civis como alvos de medidas cautelares. A nova ação investiga fatos ocorridos na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron), entre junho de 2025 e maio de 2026. Foram expedidos quatro mandados de prisão preventiva e 11 de busca e apreensão. Segundo o MPMS, somente em um episódio, em setembro de 2025, mais de 500 quilos de cocaína destinados à incineração teriam sido desviados. Esse episódio pertence à apuração estadual e não permite presumir sua soma ao volume investigado na Ifrit.

Em manifestação ao UOL, a defesa de Hoffman afirmou que ainda não havia recebido acesso integral ao processo, à decisão da nova prisão e às provas da PF. Os advogados disseram que se pronunciariam sobre as acusações após conhecer os autos e ressaltaram que as medidas cautelares não representam condenação.

A defesa do policial civil Douglas Tobias, também investigado, declarou ao Midiamax que a evolução patrimonial do agente possui origem lícita e está relacionada às atividades econômicas da família. O advogado informou que ainda não tinha acesso aos autos da Ifrit para discutir o mérito das suspeitas. As responsabilidades pelos fatos investigados deverão ser individualizadas e submetidas à análise judicial.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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