Ministro avisou 85 dias antes que o portão estava aberto para Flávio

Nosso conterrâneo realmente ilustre nos Estados Unidos é o músico Paulinho da Costa, que neste ano se tornou o 1º brasileiro com estrela na Calçada da Fama, em Hollywood, Los Angeles, onde mora há meio século. Toca 200 instrumentos, atuou em 150 filmes e fez percussão para mil grupos e cantores internacionais, a começar pelo rei do pop, Michael Jackson, com quem gravou “Thriller”, o álbum campeão de vendas no planeta em todos os tempos.

Quem vai para lá ver a homenagem a Paulinho no mais famoso hall de famosos, na Califórnia, não precisa de visto nem de ter visto, os portões estão abertos, conforme disse o ministro José Múcio: “Não temos defesa”, resumiu o comandante da maior abandonada pelo Orçamento. Confirmou-se 85 dias depois, porém, só Múcio teve a coragem e a independência de expor o “que a sociedade precisa saber”. Quando o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) partiu pela Argentina e voou para a costa contrária à de Paulinho, provou o que também todos já conhecem: nossas fronteiras são de tal forma porosas que aqui entra o monstro de 40 olhos de “Thriller” e sai o senador de 60 milhões de votos na maior facilidade.

Difícil é a tarefa de Múcio, que tentou de todo jeito convencer o governo de algo que o jurista Rui Barbosa alertou quando o cinema ainda era colorido a mão e logo após Thomas Edison inventar o fonógrafo: “O Exército [assim como a Marinha e a Aeronáutica] pode passar 100 anos sem ser utilizado, mas não pode ficar 1 minuto sem estar preparado”. O Brasil engatinha entre os últimos nos investimentos em defesa, apenas 0,2% do PIB. Nos relatórios oficiais, consta na faixa de 1%, por englobar despesas alheias à finalidade. Chegou a ser anunciado aumento de 13% nos gastos militares. Gastos, não investimentos.

Igual sina viveu Nelson Jobim. Acompanhei-o 4 vezes ministro (da Justiça, da Defesa, do Supremo e do TSE), nos 3 Poderes (foi também deputado federal), em 3 governos (FHC, Lula 2 e Dilma 1), em duas presidências (TSE e STF). Vi sua peregrinação em todos, no entanto, sofrimento de verdade teve na Defesa. Tolerou Dilma Rousseff por sete meses, não aguentou mais e soltou o verbo, como agora fez Múcio.
O resultado de quase duas décadas de omissão é o governo ter de assumir que os portos são usados por traficantes, sem explicar que sua estratégia para os combater se concentra em discursos e malemolência, que deve ser demonstrada enquanto se ouve Paulinho da Costa, não enquanto escuta o relatório de “nãos” ditos a Múcio como o foram a Jobim. Lula aprontou uma festona para a parceria com a França, 4 submarinos e um casco de nuclear, com montagem prometida de 2008 a 2033. Desde então, Comando Vermelho e PCC devem ter arrumado uns 40, alguns artesanalmente, para zanzar do Amazonas à Europa – não tem submarino nuclear, vai de subcorguinho, o negócio é fazer o pó chegar ao consumidor.

Foi o que a Global Initiative alertou e em 2025 um semissubmersível que saiu do Amapá foi pego nos Açores, Portugal, com 6.600 quilos de cocaína, uns R$ 2 bilhões antes de ser dissolvida e se transformar, com as misturas, em R$ 10 bilhões. Esse dinheiro que a facção ganha em cada carga é suficiente para adquirir 15 submarinos Humaitá, o 2º fruto da parceria franco-brasileira. Como é que compete? É preciso juntar o esforço e a tecnologia de 2 países do G-20 para fazer em 25 anos o que duas das trocentas facções locais faturam numa viagem.

Ou o governo já deu a guerra por perdida ou para de arrumar confusão. Chamar para a briga os Estados Unidos porque ilustres anões da política global se unharam é o mesmo que carrapatos se autoproclamarem vegetarianos porque o boi seu anfitrião come capim. A Foz do Amazonas, de onde saiu o semissubmersível com 6,6 toneladas de droga é aquela em nome da qual o Ibama passou 12 anos enrolando a Petrobras para não explorar a Margem Equatorial.

Está nos jornais que Múcio vai deixar o ministério. Uma pena, como foi a saída de Jobim. As palavras de ambos reverberam nos 23 mil quilômetros de fronteiras acéfalas assim como não encontraram eco nem na própria equipe as frases de Lula se diagnosticando “obcecado pela Defesa” e que deveria “tomar conta disso (os minérios), se não qualquer um pode vir aqui e tomar da gente”. Os cientistas da mente estão com um caso a ser estudado, o de uma obsessão curada com voto, passou o 2º turno e ninguém fala nisso.

Whitney Houston chamou o fluminense Paulinho da Costa de “tocado por Deus”. Michael Jackson o considerava “o maior percussionista do mundo”. O documentário da Netflix registra que “bilhões de pessoas têm a vida um pouco melhor por causa dele”. O pernambucano Múcio e o gaúcho são Paulinhos da Costa em diplomacia e realização. Se Lula admitiu, ao fim do 3º mandato, que alguém pode vir aqui e tomar da gente até o que está enterrado, os portões se escancaram para buscarem a esperança de um Brasil de Paulinhos – pois esta havia morrido na saída de Jobim e, com a despedida de Múcio, vai ficar sepultada de cabeça para baixo.

Demóstenes Torres

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Alan Ribeiro
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