
Com medo da tranca, o candidato do pai foge para a Flórida, distribui bananas a 60 milhões de eleitores e se autoproclama o De Gaulle
A primeira semana pós-vitória de Lula, reeleito para seu quarto mandato presidencial, infelizmente foi sequestrada por Flávio Bolsonaro com a rocambolesca fuga que empreendeu na direção à América de Donald Trump, temeroso de ser preso aqui por tudo o que fez de indecente ao longo de sua vida desde que, pela primeira vez, se elegeu deputado estadual pelo Rio de Janeiro.
Parecia impossível que o Bolsonaro moderado, vacinado, fosse capaz de dar “uma banana” para os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele no segundo turno. Goste-se ou não, ele era o escolhido para liderar a oposição ao governo Lula e, quem sabe, daqui a quatro anos, concorrer outra vez à Presidência da República. Não haveria outro nome da direita, até lá, a fazer-lhe sombra.
Em menos de sete dias, porém, Flávio jogou fora seu futuro por inépcia e covardia. Recusou-se a enfrentar as investigações da Justiça sobre os supostos crimes que cometeu, ao contrário de Lula quando condenado e preso pelo ex-juiz Sergio Moro. Lula julgou-se inocente, foi preso, amargou 580 dias em uma cela da Polícia Federal e acabou sendo solto pelo Supremo Tribunal Federal. Flávio escafedeu-se.
Não bastasse, ao desembarcar em Miami acompanhado da mulher e de suas filhas, protagonizou mais um episódio ridículo e vergonhoso ao lançar um manifesto em que, na primeira versão, se dizia “presidente do Brasil”, e na segunda, “líder”. Comparou-se ao general Charles de Gaulle, herói da resistência francesa à invasão de seu país pelos nazistas, e prometeu resgatar a democracia perdida pelo Brasil.
Embora negue, assim agiu aconselhado por seu pai, logo após ser intimado a entregar o passaporte. O documento era o que lhe garantia livre trânsito, e a iminência da retenção precipitou a debandada. Flávio era a esperança de Jair para recuperar sua liberdade por meio de um indulto presidencial. Essa foi a única razão plausível para que o pai o lançasse candidato. Os dois governariam juntos o país a partir de 5 de janeiro próximo. O sonho acabou.
O de Lula mal está começando, graças à determinação da maioria dos brasileiros de impor-lhe mais uma vitória. No primeiro turno, Lula perdeu para ele mesmo; ganhou o segundo de maneira inquestionável – e para sua própria surpresa. Agora, o presidente reeleito está em débito com todos os setores que o socorreram. Só não poderá decepcioná-los. Ai dele se, ao final, não for bem-sucedido. A porta da rua é a serventia da casa.
Ricardo Noblat




