
Demóstenes Torres
Antes de qualquer coisa, digite no YouTube “adágio lamentoso Tchaikovsky” para ouvir enquanto lê este artigo.
Deixou tocando e voltou ao texto? Ótimo.
Ao se deliciar com o 4º movimento, que é memorável, transporte-se para o Salão dos Nobres, São Petersburgo, Rússia, 28 de outubro de 1893. Piotr Ilitch Tchaikovski está na regência de sua última sinfonia, a nº 6, que no dia seguinte vai ser batizada de “Pathétique”. Por que chamar de “A Patética” obra tão magnífica? No Brasil, confunde-se “patético” (sentimental, emotivo, carinhoso) com “pateta” (idiota, imbecil, apalermado). Quando seu irmão de prenome inglês sugeriu o termo em francês, o gênio russo da música exclamou: “Magnífico, Modest! Esplêndido! Pathétique!”.
“Patético”, no sentido de pateta mesmo, deve ter bradado a audiência quando na recente disputa por voto surgiu o tema do ensino em tempo integral (ETI) e vomitou-se a fake news de a universalização estar avançada, a ser concluída no próximo governo. Confunde-se “tempo integral” (aprendizado 100% aproveitável e tecnológico) com “2º tempo” (contraturno, horário expandido e desculpas do gênero).
Enquanto aproveita sua viagem no tempo, volte 132 anos exatos aí do Salão dos Nobres para os complexos cariocas da Penha e do Alemão, que neste instante recebem forças de segurança numa operação que vai resultar em 122 mortos, entre eles, infelizmente, 5 policiais. Do som espetacular de quem fez os balés “O Quebra-Nozes”, “O Lago dos Cisnes” e “A Bela Adormecida”, passe para tristeza profunda como “A Patética”.
Desconte-se a gritaria pelos diversos fronts ideológicos e o resultado, quanto à política para a área, é nenhum. A ocorrência campeã em letalidade no País foi discutida sob vários ângulos, menos o da meninada que deseja evitar que tão nefasto presente seja seu futuro. Ao cuidar das causas, não apenas chorar as consequências, o ETI é solução para evitar favelas, operações, fileiras de cadáveres.
Expelem-se asneiras, como na campanha presidencial, rebatizando o maior objetivo do século, e nada de o aplicar. Sua execução é simples como esta que lhe acaricia os tímpanos: busca o estudante às 7 da manhã, leva-o de volta às 7 da noite, 4 refeições, currículo normal acrescido de artes, esportes, inglês, mandarim e o que houver de ponta no mundo da tecnologia. Sobra dinheiro, falta respeito a ele, gasto com futilidades.
Eficiente, eficaz, o ETI vai salvar o Brasil de perder a 2ª geração (período de 25 anos) do milênio, iniciada neste 2026 até o momento novamente inútil. Propus-o no Senado há duas décadas e a equipe do presidente, o mesmo de agora, obrigou sua bancada no Congresso a rejeitá-lo sob o argumento de que custaria uma fábula inexequível, R$ 1 bilhão. Revelou-se a fábula “O corvo e a raposa”. Manteve-se o sistema de o poder público fingir que investe e o aluno fingir que aprende. As prioridades são outras: pagou mil vezes mais em juros da dívida no ano passado; 5 vezes mais nas viagens durante o atual mandato. Patético.
Incluí na exposição de motivos o passo a passo para implantar o projeto e seu desiderato de reduzir a violência. Já que o poder público vai levar russa para as comunidades, não basta apenas AK 47, mas a Sinfonia nº 6. Quer subir no morro com alguém próximo à Sibéria, Kalashnikov para a turma do mal, sim, mas Dostoiévski e Tchekhov para a turma do bem, maioria absoluta em todas as quebradas. Leve o maquinário para tirar a barricada e aproveite que ele está ali, acrescente outros e construa pistas de skate, patins, bicicross. Estoure a boca de fumo, instale no lugar um hub de inovação. Destrua o laboratório de cocaína, monte um laboratório de física para aulas práticas de ciências. Passou para dentro da mansão do traficante, faça dela uma incubadora de startups. Desarme o jovem que está com o fuzil pendurado, coloque em sua mão um notebook.
Apenas 9 dias após a estreia de “A Patética”, Tchaikovski contraiu cólera e morreu. Muitos trataram como suicídio, para dar ideia de quão antiga é a moda de fake news. Estava no auge interna (grandes públicos, muito bem-vindo na corte em Moscou, recebia mesada do czar) e internacionalmente (famoso, respeitado e admirado na Europa e nos Estados Unidos). Em vez de corpos estendidos no chão, o Brasil precisa de corpos estendidos nas barras treinando balé, porque vem aí no teatro recém-inaugurado na divisa do Alemão com a Penha a estreia de “O Quebra-Nozes”.
A filha do porteiro é a Clara, o enteado da merendeira é o Príncipe, a sobrinha do camelô é a Fada do Açúcar, o motorista de aplicativo é o Tio Drosselmeyer, a manicure e o cabeleireiro fazem o casal Stahlbaum. Não, você não dormiu, pois a beleza de A Patética impede o cochilo. Mas tudo isso, infelizmente, continua sendo um sonho, uma alegoria entre o 28 de outubro de 1893 e o de 2025. Quem sabe no 28.out.2027 se torna realidade digna de se exclamar aos quatro ventos que sopram nos morros, nas quebradas, nas perifas: “Magnífico! Imodesto! Esplêndido! Pathétique!”



