
A empresária e lobista Roberta Luchsinger afirmou neste sábado (17) que pretende fazer uma delação premiada e colaborar com as investigações da Polícia Federal que envolvem seu nome e o de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Luchsinger é investigada pela PF por suspeita de tráfico de influência no governo federal e também foi alvo de medidas no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS. Ela afirma que dispõe de informações que vão além das mensagens já conhecidas pelas autoridades. As declarações foram dadas em entrevista exclusiva à CNN Brasil.
Luchsinger diz que quer fazer delação e não vai poupar Lula nem Lulinha
Luchsinger afirmou que pretende colaborar quando houver abertura legal para uma eventual delação e disse que não pretende proteger nenhuma pessoa citada nas investigações.
“[A Polícia Federal] vai poder fazer o trabalho dela investigativo e contar com minha absoluta colaboração. Eu não vou poupar ninguém. Pode ser o presidente da República, que a meu ver é um grande mau caráter, é um grande mentiroso, e eu repito, um grande covarde. Não vou poupar filho de presidente, ninguém, porque o que está em questão é a verdade”, disse Roberta.
Segundo ela, parte do que poderia relatar não aparece nas conversas de WhatsApp apreendidas.
“O que eu teria a acrescentar? Talvez detalhes que não estão ali dentro do WhatsApp, porque a vida da gente não é só no WhatsApp, é no mundo normal. Você conversa com as pessoas, fala sobre projetos. Você sabe das coisas, assiste coisas, vê coisas, tem como colaborar, muitas das vezes, com coisas que você não participou, mas assistiu”, afirmou.
Lobista rebate Lula: “Se sou pilantra, eles também são”
Luchsinger também reagiu às declarações de Lula, que já a chamou de “pilantra” e a comparou a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
“Ele mente o tempo inteiro. […] Se eu sou pilantra e toda essa turma andava e frequentava a minha casa, eles são pilantras como eu”, afirmou.
A empresária disse ainda que apoiou Lula durante anos, inclusive quando ele esteve preso, e criticou os ataques públicos feitos pelo presidente.
“E o que eu recebi em troca? Nem um muito obrigada. Eu recebi em troca ‘pilantra’, ‘mau caráter’, ‘falastrona’, ‘Vorcaro feminino’. Eu recebi em troca uma comparação com o maior criminoso financeiro do Brasil.”
Luchsinger também afirmou que passou a receber ameaças após as declarações de Lula e disse que suas filhas foram atingidas.
Luchsinger diz que Lula a transformou em “boi de piranha”
Luchsinger também afirmou que Lula a expôs publicamente ao chamá-la de “pilantra” em entrevistas e disse ter sido colocada como um “boi de piranha”.
“Como é possível que o presidente tenha usado a máquina pública. Usou um horário nobre, de espectadores, para me agredir, para me chamar de pilantra e para me colocar como um boi de piranha ali, fazendo um X na minha testa. Ataque, está aí, é pilantra, é isso. Eu tenho que também publicizar a minha defesa”, afirmou.
A empresária disse ainda temer pela própria segurança e pela das filhas e atribuiu ao presidente responsabilidade política por eventuais consequências decorrentes da exposição pública.
“Eu queria deixar colocado, classificado que qualquer coisa que acontecer comigo ou com as minhas filhas vai ter a digital do presidente da República, vai ter a mão do presidente da República, vai ter o X de sangue que ele fez na minha testa”, disse.
Luchsinger diz que Lulinha sentou “inúmeras vezes” com ministros
Outro ponto da entrevista envolveu a relação de Lulinha com integrantes do governo do pai. “É público, é notório que o Lulinha, inúmeras vezes, esteve com ministros. Inclusive, viajou para a casa do ministro Camilo [Santana] no Ceará”, afirmou Roberta.
Ela disse ainda que Lulinha teria acompanhado discussões sobre políticas públicas, inclusive sobre medicamentos à base de canabidiol.
“O Lula é um grande mentiroso quando fala: ‘Ela é uma pilantra, mas meu filho, não. Meu filho jamais sentou com algum ministro. O filho dele sentava semanalmente com ministros, seja para trocar figurinha, seja para trocar outro tipo de diálogo. Eu sentava com ministros para discutir pautas relativas a políticas públicas”, afirmou.
Luchsinger diz que PF vai avaliar empréstimos e presentes a Marcola
Luchsinger também falou sobre valores e presentes destinados a Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. Ela afirmou que não recebeu contrapartidas pelos favores e disse não saber se as condutas podem ser consideradas ilegais.
“Existe uma linha muito tênue entre a amizade e o cargo que ele ocupava. Isso, pra mim, é um amigo me chegando e me pedindo um favor. Talvez possa ser, da minha parte, amador ou imoral, não sei a palavra”, afirmou. “Eu não sei onde isso vira crime, porque é um pedido de um amigo, um pedido pessoal que eu atendo.”
A investigação encontrou no celular da empresária fotos de joias compradas para Marcola. A defesa do ex-assessor afirma que a aquisição fez parte de um empréstimo posteriormente quitado.
“Eu não sei se isso é crime, mas não tem nenhuma contrapartida da partida do Marcola. Eu não tenho um contrato público. Eu nunca tive, em toda a minha vida”, disse. Segundo Luchsinger, caberá à Polícia Federal e às autoridades responsáveis definir se os episódios configuram crime, irregularidade ou apenas uma conduta considerada imprópria.
Ela afirmou ainda que ministros do governo a procuravam por causa de sua proximidade com Marcola e da possibilidade de conseguir, por meio dele, acesso à agenda presidencial.
O que dizem os citados
A assessoria do Ministério da Educação afirmou que o senador Camilo Santana “nunca esteve com o senhor Fabio Luís para tratar de qualquer assunto de governo ou de qualquer tipo de negócio” e disse que ele não tem relação com Luchsinger.
A defesa de Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola, afirmou que ele jamais utilizou o cargo para atender a interesses privados, que o empréstimo contraído com Luchsinger foi integralmente quitado e que a organização de agendas e o encaminhamento de demandas à Presidência faziam parte de suas atribuições como chefe de gabinete.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) emitiu a seguinte nota:
“O presidente Lula desconhece inteiramente os fatos relatados pela senhora Roberta Luchsinger. Como já esclareceu em outras ocasiões, jamais manteve qualquer interlocução com ela, nunca recebeu suas demandas e tampouco tem conhecimento de supostas tratativas como as mencionadas. Importante ressaltar que não existe nenhum contrato do governo federal com a Roberta. Causa estranheza que essas declarações sejam lançadas justamente às vésperas do segundo turno da eleição. O Brasil já assistiu, em outros processos eleitorais, à divulgação de denúncias sem comprovação, usadas como instrumento de manipulação da opinião pública. A repetição desse expediente representa uma tentativa irresponsável de tumultuar o processo democrático e interferir na livre escolha dos eleitores.”



