
Uma análise da conjuntura eleitoral brasileira
Há momentos na política em que os números contam uma história, os acontecimentos contam outra e os discursos tentam contar uma terceira. Mas, quando os números e os acontecimentos começam a caminhar na mesma direção, fica cada vez mais difícil convencer o eleitor de que tudo não passa de uma impressão.
É assim que observo o segundo turno presidencial de 2026.
Não considero uma eleição decidida antes da abertura das urnas. Política não é certidão de nascimento nem atestado de óbito. Mas também não é um exercício de imaginação em que se pode ignorar o que aconteceu ontem, o que acontece hoje e o que as pesquisas vêm registrando.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Uma vantagem de aproximadamente 2,25 milhões de votos. E, desde então, sua candidatura passou a reunir apoios políticos, ampliar articulações e ocupar espaço no noticiário nacional.
As cinco pesquisas nacionais que venho acompanhando — PoderData/Aya, Datafolha, AtlasIntel/Bloomberg, Ipespe/Abrapel e DataTrends — apresentaram Flávio à frente. A média aritmética simples dos resultados, considerando os votos válidos, é de 52,72% para Flávio e 47,28% para Lula.
Uma diferença de 5,44 pontos percentuais.
Não é uma previsão eleitoral. É uma fotografia do conjunto desses levantamentos. E fotografias diferentes, tiradas por institutos diferentes, vêm mostrando um cenário semelhante.
Mas o aspecto que mais chama minha atenção não está apenas nos números. Está na maneira como os dois candidatos chegaram ao segundo turno e nas possibilidades de ampliação de seus eleitorados.
Para compreender isso, vale revisitar duas eleições.
Em 2018, Fernando Haddad chegou ao segundo turno com 29,28% dos votos válidos. Lula estava fora da disputa, e o eleitorado de esquerda, centro-esquerda e parte do centro encontrava-se distribuído entre Ciro Gomes, Marina Silva, Guilherme Boulos e outras candidaturas.
Haddad saiu de 31,34 milhões para 47,04 milhões de votos. Reduziu a diferença para Jair Bolsonaro de 16,75 para 10,26 pontos percentuais, embora não tenha conseguido vencer.
Em 2022, a situação era outra. Lula já chegou ao primeiro turno com 48,43% dos votos válidos. Sua candidatura havia concentrado grande parte do eleitorado de esquerda e centro-esquerda. Todos os demais candidatos, excluído Bolsonaro, somavam apenas 8,37%.
Ainda assim, Jair Bolsonaro ampliou sua votação em mais de sete milhões de votos no segundo turno e reduziu a diferença para Lula de 5,23 para 1,80 ponto percentual.
Esses episódios revelam uma questão fundamental: não basta observar a votação de um candidato. É preciso compreender quanto do seu eleitorado potencial já estava reunido no primeiro turno e quanto ainda permanecia distribuído entre outras candidaturas.
E aqui está uma das diferenças que identifico em 2026.
Lula, pela sua própria trajetória e capacidade de mobilização, chegou à eleição praticamente sem concorrência expressiva no campo da esquerda. Flávio, por sua vez, disputou votos com Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Renan Santos, candidaturas com perfis distintos, mas com presença no eleitorado de centro e direita.
Em outras palavras, Lula já havia reunido parcela considerável do eleitorado que naturalmente poderia apoiar sua candidatura. Flávio encontrou, depois do primeiro turno, um contingente adicional de eleitores a conquistar.
E isso não é apenas uma impressão produzida pelos discursos dos candidatos.
Na PoderData/Aya, 57% dos eleitores de Caiado declararam voto em Flávio, contra 19% em Lula. Entre os eleitores de Zema, a proporção foi de 72% a 10%; entre os de Augusto Cury, 56% a 27%; e entre os de Renan Santos, 48% a 25%.
O Datafolha, agrupando os eleitores desses quatro candidatos, registrou 46% declarando voto em Flávio e 32% em Lula. Outros levantamentos apresentaram diferenças entre os grupos, mas também identificaram movimentos de transferência para o candidato do PL.
Portanto, além dos votos que recebeu nas urnas, Flávio passou a disputar um eleitorado que estava distribuído entre candidaturas eliminadas.
E enquanto essa movimentação acontecia, outro fenômeno se desenvolvia diante dos olhos do país: a formação de uma extensa frente política em torno de sua candidatura.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury declararam apoio a Flávio. Dos quatro candidatos que ficaram na sequência dos finalistas, apenas Renan Santos não aderiu.
Vieram também União Brasil, PP, Republicanos, Podemos e Novo, além de setores importantes do MDB, cuja articulação nacional continua em andamento.
Mas talvez a expressão mais significativa dessa movimentação esteja nos estados.
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram os três maiores eleitorados do Brasil. E a campanha de Flávio passou a contar com apoios e articulações de peso nesses três estados.
Em São Paulo, Tarcísio de Freitas, reeleito no primeiro turno, assumiu uma participação cada vez mais ativa na campanha presidencial. Não ficou apenas na fotografia do apoio. Passou a trabalhar politicamente, mobilizar lideranças e atuar na construção das alianças.
Em Minas Gerais, Romeu Zema, que disputou a Presidência, declarou apoio a Flávio. O governador Cleitinho também integra o campo de apoio à candidatura, apesar das divergências políticas que já marcaram sua trajetória.
No Rio de Janeiro, a eleição de Douglas Ruas para o governo estadual reforçou a presença do PL e sua articulação com a campanha presidencial.
E o movimento não termina nos três maiores colégios eleitorais.
No Paraná, Sérgio Moro foi eleito governador no primeiro turno pelo PL. Agora, Ratinho Júnior, ex-governador e liderança do PSD, também declarou apoio a Flávio, mesmo depois de ter apoiado uma candidatura adversária à de Moro na disputa estadual.
Esse episódio merece atenção. Quando adversários de uma eleição estadual passam a apoiar o mesmo candidato presidencial, estamos diante de uma articulação que ultrapassa as divisões locais.
Em Santa Catarina, Jorginho Mello integra a campanha. No Rio Grande do Sul, Luciano Zucco foi eleito governador pelo PL. Em Goiás, Daniel Vilela, eleito no primeiro turno pelo MDB, também se incorporou ao movimento de apoio a Flávio.
O Centro-Oeste, onde Flávio obteve votações expressivas, reúne ainda a influência de Ronaldo Caiado e de lideranças políticas que participaram de projetos distintos no primeiro turno.
No Norte, governadores eleitos pelo PL, como Marcos Rogério, em Rondônia, e Arthur Henrique, em Roraima, também integram esse conjunto de apoios.
Não estamos falando apenas de declarações feitas diante das câmeras. Estamos falando de estruturas estaduais, lideranças municipais, parlamentares, prefeitos, partidos e grupos políticos com capacidade de mobilização.
O apoio de um governador não transfere automaticamente os votos de seu estado. Mas seria ingenuidade política imaginar que governadores, partidos e lideranças regionais não tenham importância numa eleição presidencial.
E há um dado expressivo: levantamento divulgado nesta semana identificou dez governadores eleitos no primeiro turno apoiando Flávio, diante de cinco que declararam apoio a Lula.
Essa presença territorial se soma à expansão partidária e ao movimento dos eleitores dos candidatos eliminados.
Enquanto isso, o Datafolha registra que 94% dos entrevistados afirmam estar decididos sobre o voto e apenas 6% admitem mudar de posição.
É um cenário que merece reflexão. Quanto mais consolidada a escolha do eleitor, maior a importância de conquistar aqueles que ainda estavam vinculados a outras candidaturas ou que não participaram da primeira votação.
Flávio encerrou o primeiro turno à frente, começou o segundo recebendo adesões e passou a reunir diferentes correntes políticas numa campanha nacional.
Lula, por sua vez, busca reorganizar a comunicação, reforçar a presença digital e recolocar no debate temas como a manutenção dos programas sociais, a escala de trabalho 6×1 e críticas ao adversário.
Na minha avaliação, o PT tem insistido excessivamente no discurso do medo, procurando convencer o eleitor sobre o que poderia perder com uma mudança de governo. Mas o eleitor que deseja mudança dificilmente se satisfaz apenas com advertências sobre o futuro. Também quer respostas sobre o presente.
Há uma ironia nessa situação: depois de quase quatro anos no poder, Lula precisa convencer o país de que ainda representa a solução para problemas que os brasileiros já conhecem de perto.
Até a tentativa de melhorar a comunicação digital apresenta contradições. Levantamento da Bites divulgado neste domingo registrou crescimento das interações nas redes de Lula, mas apontou uma proporção de menções negativas superior à de positivas.
Aumentar a exposição é uma coisa. Convencer é outra.
Nada disso elimina a possibilidade de mudanças na campanha. Fatos novos podem surgir, debates podem produzir repercussões e acontecimentos inesperados podem alterar percepções. A história política brasileira recomenda prudência diante de qualquer certeza absoluta.
Mas prudência não significa fechar os olhos para o que está acontecendo.
O que vejo neste segundo turno é uma candidatura que saiu numericamente à frente das urnas, encontrou espaço para ampliar sua base eleitoral, recebeu apoios de antigos concorrentes e passou a reunir uma extensa rede de partidos, governadores e lideranças regionais.
A isso se soma uma sequência de pesquisas nacionais que, até este momento, apresenta resultados relativamente próximos entre si.
Não é apenas um número. Não é apenas uma adesão. Não é apenas uma boa semana de campanha.
É a combinação desses fatores.
O favoritismo de Flávio Bolsonaro, na minha análise, nasce justamente dessa convergência entre o resultado das urnas, a transferência de votos, a articulação política e o comportamento das pesquisas.
Lula continua sendo um adversário eleitoral de grande expressão, com uma base consolidada e capacidade de mobilização. Mas sua candidatura enfrenta o desafio de ampliar um eleitorado que já chegou bastante concentrado ao segundo turno, enquanto Flávio incorpora novos apoios e disputa os votos que ficaram disponíveis.
A política não é uma ciência exata. Mas também não é um território onde os fatos possam ser substituídos pela vontade de quem os interpreta.
E, neste momento, os fatos que observo ajudam a explicar não apenas as dificuldades de Lula, mas, sobretudo, as possibilidades políticas que se abriram para Flávio Bolsonaro.
A eleição ainda será decidida pelos brasileiros em 25 de outubro. Até lá, continuará aberta à disputa, aos acontecimentos e à vontade soberana do eleitor.
Mas uma coisa é reconhecer que a eleição não terminou. Outra, muito diferente, é fingir que ela não tem uma história sendo construída diante dos nossos olhos.
Humberto Gebrim



