Por que eu não voto no Flávio

(e por que isso não tem nada a ver com o Lula)

Se você está pensando em votar no Flávio, eu entendo por quê. Talvez você esteja cansado do PT. Preocupado com a violência, com a economia, com os valores da sua família. São preocupações legítimas. Este texto não é para chamar ninguém de nada.
Não vou pedir voto em ninguém. Quero só fazer uma pergunta honesta: o Flávio é a resposta certa para essas preocupações? Tudo o que vem a seguir tem fonte.

O currículo

Quase 8 anos no Senado. Nenhuma lei própria. Até maio de 2026, nenhum projeto de autoria dele tinha virado lei. Nem na segurança pública, sua principal bandeira. Quando o Senado votou enquadrar PCC e CV como organizações terroristas, ele não estava no plenário e não defendeu a proposta. Nunca governou uma cidade ou um estado. Você contrataria esse currículo para dirigir o Brasil?

O dinheiro e as versões

R$ 134 milhões pedidos a um banqueiro. R$ 61 milhões pagos. Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso. O caso é descrito como a maior fraude bancária da história do país. Segundo a Polícia Federal, Flávio era seu “interlocutor direto” no financiamento do filme sobre o pai: cobrava pagamentos, marcava reuniões e acompanhava as gravações.

Duas perguntas. Duas versões.

Sobre o dinheiro: antes, “É mentira.” Depois dos áudios: “Era só investimento para o filme.”
Sobre o avião: em julho de 2026, “Nunca entrei em avião do Vorcaro.” Em setembro, registros mostram que ele e a família voaram num jato de uma empresa de Vorcaro. Nova versão: “Achei que o avião era de um amigo.”
Quem muda de versão a cada documento novo estava dizendo a verdade da primeira vez?

O miliciano e as rachadinhas

Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope, foi apontado pelo MP como chefe do Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel no Rio. Flávio empregou a mãe e a ex-mulher dele em seu gabinete. E o homenageou na Alerj com a Medalha Tiradentes. Segundo o MP, dinheiro ligado à família de Adriano abasteceu o esquema das rachadinhas. Flávio diz que não sabia de nada. Julgue você.
Não é a primeira vez. Rachadinha na Alerj, com Fabrício Queiroz. Loja de chocolates apontada pelo MP como possível meio de lavagem de dinheiro. Imóveis da família comprados com dinheiro vivo. Para ser justo: ele não foi condenado. A denúncia foi anulada pelo STJ por uma questão de foro, não por falta de provas. Mas são coincidências demais para quem se apresenta como anticorrupção.

A fé e a democracia

A fé das pessoas merece respeito. Conheço muita gente de fé verdadeira, honesta, que reza pelo país. Na minha opinião, o Flávio usa essa fé como ferramenta eleitoral. Deus no slogan, pregadores no palanque, adversários tratados como inimigos da fé. E, enquanto isso, negocia milhões com um banqueiro acusado de fraude. Quem tem fé de verdade merece ser tratado como eleitor, não como curral.
Algumas coisas não se negociam. Democracia é uma delas. Eu posso discordar de qualquer governo, de direita ou de esquerda, porque vivo numa democracia. O pai dele foi condenado em definitivo por tentativa de golpe de Estado. A promessa de Flávio é dar indulto a ele. E ele lançou a candidatura nos EUA pedindo “monitoramento internacional” da eleição brasileira. Na minha opinião, isso é preparar o terreno para não aceitar a derrota. Com ele, a democracia estaria em risco.

Patriotismo não é camiseta verde e amarela.

Eduardo Bolsonaro foi aos EUA pedir sanções contra autoridades brasileiras. Em 2025, veio o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. O próprio Trump citou o julgamento de Bolsonaro como motivo. Quem pagou a conta foram exportadores, empregos e o agro brasileiro. Flávio lançou sua candidatura num palco americano. Os EUA defendem os interesses dos EUA. Presidente do Brasil tem que defender o Brasil.

O que fica depois do mandato

Um mandato dura 4 anos. Um ministro do STF, décadas. 3 de 11 ministros do Supremo serão indicados pelo próximo presidente até 2030 (as vagas de Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes). E Flávio é hoje investigado pela Polícia Federal no caso Vorcaro. Na minha opinião, entregar a alguém nessa situação a escolha de quem vai julgar o país, e talvez a ele mesmo e à família, é um risco que dura muito mais que um governo. Independentemente de quem ganhar: quem você quer escolhendo os juízes da Suprema Corte?

O mesmo critério

Eu só peço o mesmo critério. Se fosse um candidato do PT com esse histórico, pedindo milhões a um banqueiro preso, mudando de versão a cada documento, ligado a um miliciano, qual seria a sua opinião? Não é coisa de esquerda: até candidatos da direita, como Caiado e Cury, criticam a relação dele com Vorcaro. Use a mesma régua.

Votar contra alguém também é uma escolha consciente. Existem outros candidatos, inclusive na direita. Pesquise. Compare. Decida. Só não vote por inércia.

(Fontes: Folha, Intercept Brasil, MP-RJ, STJ, Polícia Federal, Casa Branca, Reuters, STF, O Globo, UOL, Gazeta do Povo, entre outros.)

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

Alan inicia seus trabalhos com o único objetivo, trazer a todos informação de qualidade, com opinião de pessoas da mais alta competência em suas áreas de atuação.

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