
Salto repentino nas redes sociais e nas pesquisas exige transparência e explicações convincentes
O crescimento do candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) chama atenção não apenas pelo tamanho, mas principalmente pela velocidade. Em poucas semanas, o escritor saiu de uma posição praticamente irrelevante para alcançar dois dígitos em alguns levantamentos eleitorais.
Na pesquisa Quaest divulgada em 2 de setembro, Cury apareceu com 10% das intenções de voto, oito pontos acima do resultado anterior. No levantamento BTG/Nexus, passou de 2% para 11%. Outros institutos, entretanto, registraram percentuais entre 4% e 11%, demonstrando que ainda existe grande oscilação em torno de sua candidatura. Confira os números da Quaest e a comparação entre os levantamentos.
O salto eleitoral aconteceu logo depois de uma movimentação igualmente impressionante nas redes sociais. Entre 16 e 29 de agosto, Cury ganhou aproximadamente 2,5 milhões de seguidores no Instagram. Outro levantamento apontou que as publicações mencionando seu nome cresceram cerca de 40 vezes após o debate presidencial, enquanto as interações aumentaram de forma ainda mais intensa. Os dados foram analisados pela Exame.
Esses números, isoladamente, não provam a utilização de robôs. Contudo, a velocidade do crescimento, a circulação simultânea de vídeos com discursos semelhantes, a entrada repentina de inúmeros influenciadores e a identificação de comportamento automatizado em mensagens relacionadas ao candidato justificam questionamentos e uma investigação técnica independente.
Campanhas adversárias levantaram suspeitas de impulsionamento irregular e eventual contratação não declarada de influenciadores. A campanha de Cury nega qualquer irregularidade. O próprio candidato afirma que não utilizou robôs, diz ter investido aproximadamente R$ 50 mil nas redes sociais e atribui sua ascensão a um movimento espontâneo de eleitores cansados da polarização política. Até o momento, porém, não existe decisão da Justiça Eleitoral comprovando que sua campanha tenha empregado robôs ou cometido alguma ilegalidade. A suspeita e a resposta da campanha foram registradas pela Folha de S.Paulo.
Por isso, não é responsável afirmar categoricamente que os robôs são a razão de seu crescimento. O que podemos afirmar é que existem sinais digitais incomuns que precisam ser esclarecidos. Cabe à campanha apresentar transparência sobre despesas, contratos, impulsionamentos, influenciadores e estratégias utilizadas. Também cabe à Justiça Eleitoral investigar qualquer denúncia acompanhada de evidências.
Existe ainda outro ponto importante. Augusto Cury estreia na política eleitoral diretamente como candidato ao cargo mais importante da República. Nunca disputou uma eleição anterior e não possui experiência na administração pública ou no exercício de mandato eletivo. Sua trajetória como escritor, palestrante e profissional da área da saúde mental lhe proporcionou notoriedade e contato com milhões de pessoas, mas popularidade não pode ser confundida com experiência para governar um país.
Administrar o Brasil exige conhecimento profundo sobre orçamento público, relações institucionais, Congresso Nacional, estados, municípios, economia, segurança, saúde, educação e política externa. A Presidência da República não pode ser tratada como um laboratório para alguém aprender a governar depois de eleito.
Também é possível que parte do crescimento de Cury represente uma bolha digital. Os algoritmos das redes sociais conseguem produzir uma sensação de unanimidade que nem sempre existe na sociedade. Quando determinado nome aparece repetidamente na tela do eleitor, ele ganha reconhecimento, desperta curiosidade e passa a ser lembrado nas pesquisas estimuladas. Isso não significa necessariamente apoio consolidado ou conhecimento verdadeiro de suas propostas.
As próximas pesquisas, os debates e a exposição ao contraditório mostrarão se estamos diante de uma candidatura realmente competitiva ou apenas de um fenômeno momentâneo. Uma bolha pode crescer rapidamente, ocupar as redes e impressionar durante alguns dias, mas somente o tempo, a fiscalização e o confronto de ideias revelam sua verdadeira consistência.
Ninguém deve ser impedido de participar da política simplesmente por ser estreante. A renovação é legítima e necessária. Entretanto, quanto mais extraordinário for o crescimento de uma candidatura, maior deverá ser a transparência sobre as circunstâncias que o produziram.
O eleitor brasileiro precisa analisar além dos seguidores, das curtidas e dos vídeos virais. A pergunta decisiva não é quantas pessoas acompanham Augusto Cury na internet, mas se ele possui experiência, propostas viáveis, equipe preparada e capacidade política para enfrentar os enormes desafios do Brasil. Até que essas respostas apareçam de maneira convincente, seu crescimento pode ser considerado expressivo, mas ainda não necessariamente sólido.



