O fio de aço que uniu Ipameri ao mar

Humberto Gebrim

Hoje caminho pela Praia Guilhermina. O mar quebra manso na areia, crianças brincam, bicicletas passam pelo calçadão, turistas tiram fotos sem imaginar que, sob essa paisagem tranquila, existe uma história de ferro, vapor, café, bois, trilhos e homens que mudaram o Brasil.
É curioso. Estou a quase mil quilômetros de casa, mas, de certa forma, continuo em Ipameri.
Pouca gente percebe que o litoral paulista e o interior de Goiás já estiveram ligados por um único sistema econômico. Não por rodovias, nem por aviões. Por trilhos.
Quando a ferrovia chegou a Ipameri, em 1913, ela não trouxe apenas uma estação. Trouxe um novo tempo. A cidade tornou-se a grande porta de entrada do sudeste goiano. Vieram comerciantes, engenheiros, ferroviários, bancos, eletricidade, armazéns, oficinas, hotéis. Vieram o progresso e a esperança.
O café embarcava. O arroz seguia viagem. O milho, o couro, o gado, a madeira, os cereais… tudo encontrava um caminho que antes não existia. Pela ferrovia, Goiás deixava de olhar apenas para dentro e passava a conversar com o Brasil.
Os trilhos atravessavam Minas, cruzavam São Paulo, desciam a Serra do Mar e terminavam em Santos.
E que porto era aquele!
No início do século XX, o Porto de Santos já era a grande porta de saída das riquezas brasileiras. O café paulista dominava o mundo, mas não vinha apenas do Vale do Paraíba ou do oeste paulista. Aos poucos, chegavam também as riquezas do Triângulo Mineiro e do sul de Goiás.
Cada vagão que saía de Ipameri ajudava a movimentar aquele gigantesco organismo chamado Porto de Santos.
Ali aparece outra personagem dessa história: a família Guinle.
Os Guinle construíram um dos maiores impérios empresariais do Brasil, profundamente ligados à Companhia Docas de Santos. Administravam o porto, ampliavam cais, organizavam a logística e faziam de Santos um dos maiores portos da América Latina.
Enquanto Goiás crescia pelos trilhos, Santos crescia pelos navios.
As duas histórias nunca se encontraram pessoalmente. Mas economicamente eram inseparáveis.
Décadas depois, parte dessa prosperidade começou a se espalhar pelo litoral.
Em 1925, Guilherme e Arnaldo Guinle, filhos de Guilhermina Guinle, juntamente com o empreendedor Heitor Sanchez Toschi, lançaram um novo loteamento sobre antigas áreas de sítios e plantações de melancia e abacaxi.
Em homenagem à mãe, deram-lhe um nome simples:
Jardim Guilhermina.
Hoje, sentado na areia dessa praia, é impossível não imaginar esse caminho invisível.
O café que saiu de Ipameri.
O apito da locomotiva rompendo o cerrado.
Os vagões descendo rumo ao mar.
Os guindastes carregando navios em Santos.
Os recursos circulando.
Os investimentos surgindo.
E, alguns quilômetros adiante, uma praia que começava a nascer.
É como se existisse um fio de aço ligando a antiga estação ferroviária de Ipameri ao calçadão da Guilhermina.
Os turistas enxergam apenas a praia.
Eu enxergo também os trilhos.
Porque, antes de existir a Via Anchieta, antes da Imigrantes, antes dos edifícios altos de Praia Grande, quem unia o Centro-Oeste ao oceano era a ferrovia.
Talvez seja por isso que caminhar hoje pela Guilhermina desperte uma estranha sensação de familiaridade.
Não porque Ipameri esteja aqui.
Mas porque um pedaço da história de Ipameri ajudou, silenciosamente, a escrever a história deste lugar.
O mar e o cerrado parecem mundos distantes.
Na verdade, durante boa parte do século XX, eram vizinhos ligados por uma linha férrea, por um porto e pelo trabalho de milhares de brasileiros que jamais imaginariam que, mais de cem anos depois, alguém pisaria nesta areia tentando ouvir, no barulho das ondas, o velho apito de uma locomotiva.
Enquanto caminho pela areia da Praia Guilhermina, olhando o mar que parece não ter fim, percebo que existe, sim, um pedacinho de Ipameri aqui. Não em uma placa, nem em um monumento, mas na história. A produção que embarcava nos vagões da ferrovia em Ipameri seguia rumo ao Porto de Santos, movimentava navios, fortalecia o comércio, impulsionava empresas, enriquecia uma região inteira e ajudava a escrever a história que, anos depois, daria origem a lugares como este. O mar nunca viu as locomotivas cruzando o cerrado, mas recebeu tudo o que elas traziam. E talvez seja essa a maior beleza da História: ela une lugares que a geografia separa. Hoje, caminhando pela Guilhermina, entendo que a distância entre Ipameri e o litoral é medida em quilômetros. Mas, pela memória dos trilhos, pelo trabalho de gerações e pelo desenvolvimento que ajudaram a construir, existe um fio invisível que continua ligando o cerrado goiano às ondas da Baixada Santista. E é por isso que, no fundo, sempre haverá um pouquinho de Ipameri aqui.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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