Entre o altar e a cruz: A suficiência do sacrifico de Cristo e o perigo de transformar a Graça em obrigação

Josimar Salum

A linguagem da Lei ainda permeia grande parte da pregação contemporânea. Frequentemente, o povo de Deus é chamado a viver em um estado permanente de sacrifício, como se a vida com Jesus fosse definida principalmente pelo que o homem oferece a Deus. Ensina-se que tudo o que fazemos para Deus precisa custar algo, e muitas vezes a renúncia, a obediência, o serviço e até mesmo a adoração são apresentados como sacrifícios exigidos por Deus para obter Seu favor ou aprovação.

Contudo, o Novo Testamento aponta para uma revelação superior. O sacrifício perfeito e definitivo já foi oferecido em Cristo. O autor de Hebreus estabelece um contraste profundo entre o sistema sacrificial da antiga aliança e a obra consumada de Jesus:

“Mas Cristo, vindo como sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no Santo dos Santos, havendo obtido eterna redenção” (Hebreus 9:11-12).

Mais adiante, ele declara: “Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no próprio céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus” (Hebreus 9:24).

E conclui: “Agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26).

A mensagem do Evangelho é inequívoca. Cristo ofereceu um único sacrifício, perfeito, suficiente e definitivo. Não há necessidade de repetição. Como resume Hebreus 10:12: “Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à direita de Deus.”

Assim é legítimo perguntar se parte da linguagem utilizada em muitos púlpitos não representa um retorno involuntário à mentalidade do antigo sistema. O constante apelo para trazer dízimos, ofertas e sacrifícios ao altar revela uma tensão que muitas vezes contradiz a mensagem do Evangelho do Reino. O sistema sacrificial da antiga aliança estava fundamentado em uma sucessão contínua de ofertas trazidas ao altar. Entretanto, a Nova Aliança está fundamentada na suficiência daquilo que Cristo já ofereceu.

Quando a linguagem predominante das igrejas passa a girar em torno daquilo que as pessoas precisam trazer, entregar ou sacrificar, corre-se o risco de desviar a atenção da obra consumada de Cristo para as obras dos homens. O vocabulário da obrigação, do custo, do sacrifício contínuo e da constante arrecadação pode, muitas vezes sem intenção, obscurecer a exclusiva mensagem do Evangelho da Graça e da suficiência da obra de Cristo.
Isso não significa que a generosidade tenha desaparecido da vida do discípulo. Pelo contrário. A Nova Aliança ensina uma generosidade ainda mais profunda, porém voluntária, espontânea e motivada pelo amor. Paulo escreve: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Coríntios 9:7).

A ênfase não está em sustentar um altar por meio de ofertas contínuas, mas em uma vida transformada pela graça de Deus. Da mesma forma, a expressão “sacrifício de louvor” (Hebreus 13:15) não descreve uma tentativa de satisfazer exigências de Deus, mas a resposta espontânea de um povo redimido que vive em gratidão.

A renúncia existe, sem dúvida. Jesus continua chamando homens e mulheres a negarem a si mesmos e a segui-Lo. Contudo, essa renúncia não é um sacrifício expiatório nem uma moeda de troca para obter o favor de Deus. É simplesmente a consequência natural de alguém que encontrou um tesouro maior. Quem encontrou Cristo abandona outras coisas não para conquistar Deus, mas porque já foi conquistado por Ele.

A mensagem do Evangelho não é aquilo que oferecemos a Deus, mas aquilo que Deus ofereceu a nós em Seu Filho. O Evangelho anuncia primeiramente o dom de Deus, não a contribuição do homem. A generosidade, a obediência, o serviço e a adoração são frutos dessa Graça; jamais sua condição.

Por isso, a linguagem predominante da Nova Aliança não é a do altar de sacrifícios, mas a da filiação, da reconciliação, da nova criação e da vida em Cristo. A mensagem não é o que o homem deve continuamente trazer a Deus, mas aquilo que Deus já deu ao homem em Cristo, de uma vez para sempre.

Este texto se conecta muito bem com o princípio de 1 Samuel 15:22: “Obedecer é melhor do que sacrificar.” Deus nunca buscou um povo ocupado em produzir sacrifícios incessantes, mas filhos que ouvem Sua voz, vivem pela fé e participam da vida que Ele lhes concedeu em Cristo.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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