Não é a Lei, é Cristo: a verdadeira doutrina dos apóstolos

A objeção de um pastor

Vejo uma questão importante: o Novo Testamento só foi canonizado no ano 365 d.C. Até então, as Escrituras conhecidas da igreja eram a Torah, conhecida como a Lei, e os Profetas. Quando Jesus e os apóstolos citam as Escrituras, eles citam os ensinamentos do Antigo Testamento. As cartas foram escritas para trazer luz a questões que surgiram na caminhada da igreja. Os irmãos de Roma, por exemplo, nunca souberam o que Paulo escreveu à Galácia. Portanto, quando se fala em “doutrina dos apóstolos”, está se referindo à Lei e aos Profetas, enquanto as cartas serviriam como orientação às igrejas. Sobre o dízimo, não é citado porque já era praticado há séculos pelos judeus, que, agora convertidos, continuam essas práticas em seu relacionamento com Deus, incluindo também o sábado e as festas.

A resposta baseada na Bíblia — Josimar Salum

Há um ponto importante na sua colocação que precisa ser ajustado à luz das próprias Escrituras, mantendo fidelidade ao texto e não a reconstruções históricas ou inferências.

É verdade que, no tempo de Jesus e dos apóstolos, o que se chamava de “Escrituras” eram a Lei e os Profetas (Lucas 24:27, 44). Também é correto dizer que as cartas apostólicas surgiram para tratar questões específicas nas comunidades e trazer luz a situações concretas vividas pelas igrejas.

No entanto, a conclusão de que a “doutrina dos apóstolos” era apenas a Lei e os Profetas, ficando as cartas em um papel secundário, não se sustenta quando examinamos o próprio Novo Testamento.

A “doutrina dos apóstolos” não é uma repetição da Lei. Ela é a interpretação, o cumprimento e a aplicação das Escrituras à luz de Cristo.

Está escrito que os discípulos “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (Atos 2:42). E o que os apóstolos ensinavam? Eles não ensinavam a permanência na Lei como sistema de relacionamento com Deus, mas a realidade cumprida em Cristo.

Veja alguns pontos claros nas próprias cartas apostólicas:

Paulo afirma que os crentes não estão debaixo da Lei, mas debaixo da graça (Romanos 6:14). Ele declara que fomos libertos da Lei para servirmos em novidade de espírito (Romanos 7:6). Em Gálatas, ele é ainda mais direto: “se vos deixais circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará” (Gálatas 5:2), mostrando que práticas da Lei não são mais a base do relacionamento com Deus.

O autor de Hebreus declara explicitamente que houve mudança de aliança: “Dizendo nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho e se envelhece, perto está de desaparecer” (Hebreus 8:13). Isso não é um comentário histórico — é ensino doutrinário.

Portanto, os apóstolos não estavam ensinando a Lei como prática contínua, mas mostrando que ela teve um propósito e foi cumprida.

Sobre o ponto do dízimo:

O argumento de que ele não é citado porque já era praticado não se sustenta à luz do padrão apostólico.

Outras práticas judaicas também eram antigas — circuncisão, sábado e festas — e, justamente por isso, foram tratadas diretamente nas cartas. Se o dízimo fosse obrigatório para os discípulos de Jesus, ele teria sido reafirmado claramente, assim como outras questões foram enfrentadas.

Mas o que vemos é o oposto.

O ensino apostólico sobre contribuição não menciona o dízimo como mandamento. O padrão apresentado é outro: dar voluntariamente, conforme o coração, sem imposição, com liberdade e entendimento, como está escrito: “Cada um contribua segundo propôs no coração, não com tristeza ou por necessidade” (2 Coríntios 9:7).

Isso não é omissão — é substituição de padrão.

Sobre os judeus convertidos continuarem práticas:

Sim, muitos continuaram, especialmente no início. Isso faz parte do processo de transição. No entanto, isso não significa que essas práticas eram exigidas para todos, nem que constituíam a base da nova aliança.

Atos 15 trata exatamente dessa questão. Os apóstolos decidiram que não se deveria impor a Lei aos gentios. E, ao longo do ensino apostólico, fica claro que essas práticas eram toleradas em certos contextos, mas não estabelecidas como doutrina.

Paulo, inclusive, trata essas observâncias como não essenciais: “um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias” (Romanos 14:5).

Ou seja, não são mandamentos do novo pacto.

Portanto, o ponto BÍBLICO é este:

A doutrina dos apóstolos não é a continuidade da Lei como sistema, mas o ensino de Cristo revelado e aplicado pelos apóstolos.

As cartas não são apenas orientações circunstanciais — elas fazem parte da revelação apostólica e constituem fundamento doutrinário da Ekklesia, como está escrito que a casa de Deus está edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas” (Efésios 2:20).

Concluir que o dízimo, o sábado e as festas continuam como prática normativa por ausência de proibição ignora o princípio estabelecido pelos próprios apóstolos: não estamos mais sob a Lei como sistema de relacionamento com Deus.

E, ao mesmo tempo, isso não deve ser usado como justificativa para não contribuir, mas para elevar o padrão: generosidade, liberdade, entendimento e um coração disposto — não obrigação legal.

Esse é o ensino consistente das Escrituras.

ASONE

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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