
Como líderes se tornam grandes e acabam sozinhos
Josimar Salum
Alguém muito chegado me escreveu nesta manhã: “Eu amo muito você, porque você me ensinou e porque me amou desde sempre.”
Essa frase simples carrega um peso que muitos que ocupam posições de liderança talvez tenham esquecido.
Antes de qualquer conquista, antes de qualquer reconhecimento, antes dos números, dos títulos e das plataformas, havia algo mais poderoso: cuidado, paciência e presença. Foi isso que construiu fundamentos que o tempo não consegue apagar.
No final, não são os cargos que permanecem na memória das pessoas. São os momentos em que alguém decidiu parar, ouvir, caminhar junto, acreditar quando ninguém mais acreditava.
Amar é permanecer, é continuar investindo., é enxergar valor onde outros já desistiram de procurar.
Mas o crescimento traz um teste. À medida que a influência aumenta, surge a tentação de substituir relacionamento por estrutura, proximidade por agenda, pessoas por projetos. A obra cresce, a visibilidade aumenta, mas o coração pode encolher.
Alguns se tornam grandes pelo que construíram, pelo que administram, pelo que realizam. Tornam-se referências de sucesso. Porém, tragicamente, nem sempre crescem na mesma proporção por dentro. E quando a grandeza exterior não é acompanhada pela profundidade interior, instala-se uma perda quase imperceptível: perde-se o contato com a vida.
Sobe-se na pirâmide, mas deixa-se de sentir o chão. Multiplicam-se compromissos, mas diminuem-se encontros verdadeiros. A voz se torna pública, mas o coração se torna distante.
Perde-se o tato com os pequenos. Já não há tempo para quem não traz retorno. Já não há espaço para quem não oferece visibilidade. O invisível deixa de importar. Então, lentamente, o líder começa a experimentar a solidão da altura. Cercado por muitos, mas conhecido por poucos. Honrado em público, mas distante no íntimo. Aplaudido nas plataformas, mas desconectado das lágrimas reais. Esse é o risco mais devastador da liderança: crescer para fora e diminuir por dentro.
Nenhuma construção compensa a perda da capacidade de amar. Nenhum resultado substitui a ausência de vínculos verdadeiros. Nada é mais pobre do que ganhar relevância e perder pessoas.
Porque, no fim, o que sustenta a jornada nunca foi o tamanho da obra. Sempre foi a profundidade do amor. Este é um chamado aos líderes.
Lembrem-se de onde vocês começaram. Lembrem-se de quem caminhou com vocês quando não havia nada a oferecer em troca. Lembrem-se de que autoridade não é medida pela distância que se cria, mas pela proximidade que se mantém. Ainda há tempo de voltar.
Sempre é possível descer da posição que nos isolou e reaprender a sentar ao lado. O caminho de volta começa quando decidimos ouvir de novo, tocar de novo, andar perto de novo. Grande não é quem ocupa o topo. Grande é quem continua acessível. Grande é quem permanece humano. Grande é quem não perdeu o amor.
A verdadeira força de um líder não está em quantos o seguem, mas em quantos se sentem vistos, lembrados e cuidados por ele. Por isso, aquela mensagem da manhã é tão poderosa.
Ela me lembra que, acima de qualquer realização, o que realmente transforma vidas é ter amado alguém o suficiente para permanecer. Foi esse amor que me formou.
Foi esse amor que me deu direção. Foi esse amor que me ensinou a ter misericórdia e esperança.
Se hoje continuo caminhando, servindo e acreditando, é porque um dia alguém decidiu me amar primeiro. E é esse tipo de grandeza que nunca ficará só.


