Se a mídia odeia fake news, por que publica horóscopo?

Demóstenes Torres

Diários que têm serviço de checagem de informação conservam a estupidez de iludir os crédulos com parvoíces.

O que há em comum entre Thomas Alva Edison e Mary Quant, além de serem inventores, ele da lâmpada elétrica, ela da minissaia? E entre Manuel Noriega e Gabriel Boric, além de terem chegado à presidência de seus países, o narcotraficante do Panamá e o esquerdista do Chile? E entre Kelly Slater e Wellington Tanque, além de serem atletas, o supercampeão do surf e o atacante do América de Natal? Todos eles aniversariam em 11 de fevereiro.

Como tiveram destinos tão diferentes, por que as previsões dos astros são/foram as mesmas para todos eles?
Isso me voltou à memória depois de ter recebido mensagem de aniversário, após umas décadas sem conversarmos, de um colega de aula dos tempos de adolescência que à época compartilhou um sofrimento terrível. Havia ido ao parque de exposições agropecuárias e próximo à entrada estavam as então indefectíveis ciganas, que de tão falsas nem ciganas são. Caiu na lábia de uma que pediu para olhar a sua mão em troca de algum dinheiro. Passadas as obviedades de praxe, “você vai crescer saudável” (tínhamos uns 12 anos, por aí), “vai ser bem-sucedido na profissão que escolher”, soltou uma bomba atômica sobre o menino: “Estou vendo uma nuvem muito escura”.

Após as enrolações costumeiras, na tentativa de tomar novos trocados, anunciou o fim do mundo: “Para tudo isso [as previsões favoráveis] acontecer, precisamos realizar um trabalho espiritual, senão você vai morrer muito jovem”. Ele quase perdeu os sentidos. Ela foi incisiva: “Ainda neste mês”.

O rapazote inteligente na escola, num último esforço de racionalidade, sacou a dúvida e a atirou no rosto da farsante: “E onde você viu isso?”. Nada de ela baixar a crista. Quis saber qual sua data de nascimento, sacou da bolsa a tiracolo um bocado de recortes de jornal, verificou até encontrar o de seu signo e lá estava a lorota impressa: cuidasse da saúde, pois uma novidade letal surgiria se errasse em suas decisões.

Ou seja, uma sequência de tolices. Sem lhe restar 1 centavo sequer para saciar a ganância da estelionatária, saiu de lá apavorado antes de ver os rodeios, passou o final de semana em total aflição e, na segunda-feira seguinte, me contou essa história. Minha reação foi rir dele, e alto, o que só aumentou seu pavor.

Percebendo o mal que lhe fazia, contemporizei, expliquei, conversei, não adiantava. Até chegar à comparação óbvia: você acha que toda pessoa nascida num período de 30 dias, ao longo dos anos, vai morrer ainda neste mês se não esvaziar o bolso para uma cigana de mentira?

Ele aquiesceu, se demonstrou aliviado e supus que quem estava morto era o assunto. Passaram-se uns dias e ele, contente além da conta, me procurou para falarmos de um disco qualquer, pois música era o tema que nos unia. Indaguei o motivo da alegria excessiva e a resposta mostrou que a ameaça da criminosa ainda repercutia no amigo: “Mudou o mês e tô vivinho da silva”.

Toda vez que sou instado a dizer meu signo, vêm à lembrança a angústia e o tormento desse colega. É terminar de dizer “aquário” e vir a torrente de decanato e outros termos, que aquariano é isso e aquilo. Concordo com o interlocutor e seguro a vontade de emitir o mesmo sorriso com que irritei o meu amigo.

No reencontro via WhatsApp, claro, nem tocamos no tema. Porém, fiquei curioso sobre as colunas de horóscopo na imprensa. Será que ainda existem? Vou checar. Sobreviveram! Os jornais acabaram e as páginas de signo, não.

Alguém ainda deve crer naquilo, o que diz mais sobre a mídia que acerca de seus consumidores. Diários que têm serviço de checagem de informação conservam a estupidez de iludir os crédulos com parvoíces. Fake news quando são os outros, quando eles mentem é atração cultural.

“Informam” que “o céu indica um período em que criatividade e empreendedorismo vão juntos”, e “generosidade em alta pode levar a envolvimento em causas altruístas” e que eu “fique de olho nos gastos”. Ufa!, ainda bem que as nuvens escuras nada determinaram sobre doenças fatais para meninos que não remunerarem o engodo.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

Alan inicia seus trabalhos com o único objetivo, trazer a todos informação de qualidade, com opinião de pessoas da mais alta competência em suas áreas de atuação.

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