
Antes de Vila Boa, existia a Barra. Ali, Bartolomeu Bueno da Silva terminou seus dias, em 1740, longe da glória e do ouro que ajudou a arrancar das entranhas do território goiano. Quase três séculos depois, uma restauração de R$ 2,8 milhões pode ajudar a esclarecer um dos grandes mistérios da história de Goiás: onde foi enterrado o homem que entrou para a história como Anhanguera? A resposta talvez esteja sob o chão de uma pequena igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário.
Há quase 300 anos, um homem morreu num pequeno arraial de Goiás. Tinha atravessado sertões, comandado expedições, encontrado ouro, acumulado prestígio, enfrentado disputas políticas e participado da transformação de um território indígena em uma das regiões mineradoras mais importantes da América portuguesa.
Seu nome era Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera. Morreu em 19 de setembro de 1740, segundo o registro histórico de Raimundo José da Cunha Mattos, no Arraial da Barra, hoje Buenolândia, distrito da cidade de Goiás.
O problema é que ninguém sabe, com segurança, onde foi enterrado. Não existe, entre os documentos identificados nesta investigação, um registro de sepultamento que permita localizar sua sepultura. Não há lápide reconhecida, restos mortais identificados ou prova arqueológica de seu túmulo. O homem que ajudou a colocar Goiás no mapa desapareceu do próprio mapa funerário.
Agora, uma pequena igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, em Buenolândia, pode oferecer novas pistas. Considerada uma das mais antigas construções religiosas de Goiás, o templo será objeto de um projeto de restauração estimado em R$ 2,8 milhões, conduzido pela Secretaria de Estado da Cultura. A intervenção prevê acompanhamento arqueológico, embora ainda seja necessário confirmar a equipe responsável e o alcance exato das pesquisas.
Existe uma tradição antiga entre os moradores: Anhanguera teria sido enterrado dentro da igreja. Não é uma hipótese inteiramente absurda. Tampouco é uma verdade histórica. E é justamente nesse território, entre o documento e a lenda, que começa uma das histórias mais interessantes dos quase 300 anos da antiga capital.
Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Buenolândia. Restauração começa em 2027
Antes de Goiás, havia a Barra
Para entender o mistério, é preciso voltar ao início do século XVIII, quando não existiam Goiânia, Brasília ou sequer Vila Boa de Goiás. A região era habitada por diferentes povos indígenas. Os caminhos, rios e serras que os portugueses começariam a percorrer não constituíam um território vazio à espera de descobridores.
A palavra descoberta, aliás, sempre foi generosa com quem chegou depois. Bartolomeu Bueno da Silva, o filho, pertencia a uma família de sertanistas paulistas. Seu pai, também Bartolomeu, ficou associado à famosa história da aguardente incendiada, usada para intimidar indígenas e alimentar a lenda de Anhanguera, o Diabo Velho. A narrativa atravessou séculos, entrou nos livros escolares e ajudou a transformar violência colonial em folclore.
Em 1722, o segundo Anhanguera partiu de São Paulo à frente de uma expedição destinada a localizar jazidas de ouro no interior do continente. Não se tratava de uma aventura romântica. A Coroa portuguesa precisava ampliar a exploração mineral, arrecadar impostos e consolidar sua presença sobre territórios indígenas. O ouro era a finalidade. A conquista, o método.
Bartolomeu Bueno da Silva: o Anhanguera
Depois de anos de deslocamentos, a expedição alcançou a região onde surgiriam os primeiros arraiais mineradores goianos. A cronologia tradicional situa em 1725 a localização de jazidas e, em 1726, o retorno de Bueno com poderes para organizar a exploração.
Na confluência dos rios Vermelho e Bugre, formou-se o Arraial da Barra. A localidade teve papel importante na primeira ocupação colonial da região, antes da consolidação de Santana, núcleo que daria origem à Vila Boa.
Há, porém, uma divergência histórica que merece atenção. A Prefeitura de Goiás adotou 6 de julho de 1726 como referência para celebrar o tricentenário de Buenolândia, em 2026. Cunha Mattos, por sua vez, atribuiu ao arraial o ano de 1728.
A pesquisadora Luciana Helena Alves da Silva, da Universidade Federal de Goiás, também questionou a fundamentação documental da data precisa repetida nas comemorações. A Barra pode ser mais antiga do que Santana como núcleo de ocupação colonial. Mas transformar uma cronologia tradicional em certidão de nascimento exige documentos. E, como se sabe, documentos têm o inconveniente de nem sempre concordar com as solenidades oficiais.
O ouro, a igreja e o nascimento de uma comunidade
O Arraial da Barra não era uma fazenda isolada. Integrava uma rede de núcleos mineradores que incluía Santana, Ouro Fino e Ferreiro. A mineração exigia trabalhadores, caminhos, alimentos, comércio e estruturas de autoridade. A Barra fazia parte dessa engrenagem e a igreja de Nossa Senhora do Rosário surgiu nesse ambiente.
A religião católica acompanhava a colonização portuguesa, mas sua presença estava longe de se limitar à fé. Igrejas organizavam cerimônias, registros, festas, relações de prestígio e práticas funerárias. Em muitas localidades coloniais, o espaço religioso era também um centro da vida pública.
A devoção a Nossa Senhora do Rosário esteve associada, em numerosas comunidades brasileiras, a irmandades negras. Isso, entretanto, não autoriza afirmar sem documentação que a igreja de Buenolândia tenha sido fundada por uma irmandade específica. A história da construção ainda apresenta lacunas.
Igreja Nossa Senhora do Rosário: data da construção é motivo de discussão
A data de 1734 aparece em referências recentes, mas um parecer do Conselho Estadual de Cultura reconhece a inexistência de documentação conclusiva para estabelecer o ano da edificação. A construção, predominantemente em taipa de pilão, apresenta características compatíveis com técnicas coloniais, mas a igreja já passou por diversas modificações e acabou perdendo elementos antigos, entre eles seu altar primitivo.
Uma referência cartográfica atribuída a 1740, examinada em pesquisa universitária, oferece uma pista sobre a presença do pequeno templo no núcleo histórico. No entanto, não é possível garantir que todas as paredes atuais tenham sido erguidas na mesma época. Isso significa que a igreja pode guardar diferentes momentos de construção. E talvez diferentes camadas de história debaixo do piso.
A igreja que pode ter recebido Anhanguera
Aqui surge a primeira grande pergunta. Bartolomeu Bueno da Silva conheceu a igreja de Nossa Senhora do Rosário?
É perfeitamente plausível que tenha conhecido uma construção religiosa existente no arraial onde viveu seus últimos dias. Mas plausibilidade não é prova. Até agora, não foi identificado um registro individualizado de sua presença numa missa, cerimônia ou visita ao templo.
Se a igreja já funcionava antes de setembro de 1740, Bueno poderia tê-la frequentado. O que não se pode fazer é transformar essa possibilidade numa cena histórica inventada, com o bandeirante ajoelhado diante de um altar que talvez nem fosse o mesmo preservado posteriormente. A documentação não permite tamanho exercício de imaginação.
O que se sabe é que sua trajetória, depois das descobertas auríferas, esteve marcada por disputas envolvendo privilégios, negócios e autoridades coloniais. O catálogo do Projeto Resgate, da Biblioteca Nacional, registra um requerimento anterior a fevereiro de 1732 no qual Bueno solicitava cópia do regimento recebido em 1722.
Outro documento, de setembro de 1733, trata das passagens de rios concedidas a ele e a João Leite da Silva Ortiz. Em janeiro de 1735, uma carta de Gregório Dias da Silva apresentou acusações contra procedimentos do descobridor.
Bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, agente a serviço da Coroa Portuguesa na terra dos Goyazes
São documentos importantes porque mostram um personagem envolvido nas engrenagens políticas e econômicas da colonização. Anhanguera não era apenas um homem caminhando pelo mato à procura de ouro, mas também um agente de interesses econômicos e políticos, num território onde o poder da Coroa portuguesa se afirmava sobre as populações locais.
O historiador Fernando Lobo Lemes examinou essas disputas num estudo sobre interesses transatlânticos, acusações e negócios envolvendo São Paulo, Goiás e Lisboa entre 1721 e 1733. A imagem do bandeirante abandonado, empobrecido e esquecido precisa ser lida à luz desses conflitos. Porque a história costuma ser mais complexa do que a estátua.
A morte de Anhanguera: o que realmente sabemos?
Em 19 de setembro de 1740, segundo Cunha Mattos, Bartolomeu Bueno da Silva morreu no Arraial da Barra. Essa é uma das informações centrais da investigação. O problema começa quando se tenta reconstruir as circunstâncias da morte.
Não foi encontrado documento capaz de estabelecer sua causa clínica, a duração de uma eventual doença, a identidade de quem estava ao seu lado ou o sacerdote que o teria assistido. Também não se conhecem suas últimas palavras.
A tradição historiográfica frequentemente apresenta Anhanguera terminando seus dias na pobreza, depois de perder prestígio e enfrentar disputas com as autoridades. Outros relatos históricos mencionam uma ajuda em ouro concedida por Luís de Mascarenhas e posteriormente cobrada.
São informações que precisam ser compreendidas dentro das relações de poder do período. Não autorizam concluir que o bandeirante morreu de fome, de desgosto ou vítima de alguma conspiração.
Também não permitem descrever seu último dia como se alguém tivesse deixado um diário ao lado da cama. O que permanece documentado é o local atribuído à morte. E, a partir daí, começa o silêncio. Onde foi realizado o funeral? Houve cerimônia religiosa? Seu corpo foi sepultado dentro de uma igreja? No adro? Em algum cemitério próximo? Ou numa sepultura que desapareceu com as transformações do antigo arraial?
Nenhuma dessas perguntas recebeu, até agora, resposta definitiva.
Um cadáver debaixo da igreja?
A tradição de que Anhanguera estaria enterrado na igreja de Nossa Senhora do Rosário não nasceu com o atual projeto de restauração. Ela aparece registrada em documentação do Conselho Estadual de Cultura, que reconhece a existência dessa memória entre os moradores.
O mesmo documento não apresenta prova material da sepultura. É uma distinção fundamental. A tradição oral pode conservar informações que desapareceram dos arquivos. Mas também pode misturar personagens, acontecimentos e lugares ao longo das gerações. Não deve ser desprezada. Muito menos promovida automaticamente à condição de verdade.
No Brasil colonial, os sepultamentos dentro das igrejas eram práticas conhecidas. A localização das sepulturas podia refletir hierarquias religiosas, econômicas e sociais. Pessoas de maior prestígio frequentemente recebiam lugares considerados privilegiados.
Restauração e escavação arqueológica da Igreja do Rosário deverão revelar muito mais do que um esqueleto embaixo do altar
Um personagem com a importância histórica de Bartolomeu Bueno poderia, em determinadas circunstâncias, ter sido enterrado dentro de um templo. Mas seria necessário demonstrar que a igreja já existia, que estava em funcionamento e que o sepultamento ocorreu ali. Três condições diferentes. E nenhuma delas pode ser resolvida apenas pela fama do morto.
A existência de um cemitério ao lado da igreja acrescenta outra possibilidade. Entretanto, não foi possível determinar quando esse cemitério começou a funcionar. Ele poderia ser posterior à morte de Anhanguera. Também é possível que a organização funerária do arraial tenha mudado ao longo dos séculos.
Sem documentação ou investigação arqueológica, não se pode estabelecer a relação entre o cemitério atual e os sepultamentos de 1740. A arqueologia poderá contribuir para esclarecer essas questões. Mas encontrar uma ossada antiga não será suficiente para anunciar que Anhanguera finalmente reapareceu.
Seria necessário estabelecer sua datação, contexto funerário e, sobretudo, encontrar elementos confiáveis de identificação. Um esqueleto não carrega o nome do proprietário gravado nos ossos.
O mistério já existia em 1936
Em 14 de abril de 1936, o jornal Correio de S. Paulo publicou uma notícia sobre uma possível sepultura de Anhanguera. A localização mencionada não era o interior da igreja. Era uma área próxima à estrada entre Goiás e a Barra.
Segundo o relato, um campeiro teria indicado uma laje com inscrições desgastadas, associada à hipótese de um túmulo. Havia interesse em localizar os restos mortais e transferi-los para um monumento.
A notícia revela algo importante: há pelo menos nove décadas, circulavam versões diferentes sobre o paradeiro do corpo. Uma apontava para uma sepultura próxima à estrada. Outra tradição aponta para a igreja. Nenhuma foi comprovada.
A notícia de 1936 não permite afirmar que a laje realmente pertencesse a Anhanguera, nem que os restos tenham sido encontrados, também não demonstra que aquela localização corresponda ao cemitério atual. O episódio, porém, desmonta a ideia de que o mistério nasceu recentemente.
Goiás procura o túmulo de Anhanguera há muito tempo. E, aparentemente, continua procurando nos lugares onde a memória aponta, enquanto os documentos permanecem incompletos.
Uma restauração de R$ 2,8 milhões e a oportunidade de investigar o passado
A Secretaria de Estado da Cultura anunciou uma intervenção na igreja de Nossa Senhora do Rosário com orçamento aproximado de R$ 2,8 milhões. O procedimento licitatório identificado no sistema estadual é a Concorrência 001/2026, contratação 118703, com sessão prevista para janeiro de 2027.
O projeto representa uma oportunidade de preservar um dos testemunhos materiais mais importantes da primeira ocupação colonial de Goiás. A edificação necessita de cuidados estruturais e intervenções compatíveis com seu valor histórico. Também está previsto acompanhamento arqueológico.
Em agosto de 2026, pesquisadores da UFG e técnicos da Secretaria de Cultura participaram de uma vistoria no local. A presença da universidade demonstra interesse acadêmico e colaboração técnica, mas não significa que a instituição tenha sido formalmente contratada para dirigir as futuras escavações.
Uma restauração arquitetônica pode revelar estruturas antigas, pisos anteriores, fundações, objetos e vestígios de ocupação. Já uma investigação arqueológica dirigida poderá estudar contextos funerários, caso existam e sejam acessíveis. O que não se pode fazer é anunciar uma caça ao túmulo antes de saber se o projeto prevê essa pesquisa.
O maior valor da investigação talvez não esteja na descoberta de um personagem famoso. A igreja pode guardar vestígios de sucessivas reformas, materiais de construção, antigas configurações internas e práticas religiosas. Além de guardar informações sobre os habitantes do arraial, inclusive pessoas cujos nomes desapareceram dos registros mais conhecidos.
Trabalhadores indígenas, africanos escravizados, libertos, mulheres, crianças e famílias que participaram da formação daquela comunidade raramente receberam a mesma atenção dedicada aos chefes das expedições.
A história colonial costuma conservar os nomes dos homens que mandavam. A arqueologia pode recuperar parte da vida daqueles que construíam. Esse é um dos aspectos mais importantes da restauração.
Mesmo que nenhum vestígio associado a Anhanguera seja encontrado, o trabalho poderá ampliar consideravelmente o conhecimento sobre o nascimento de Goiás. E existe outra questão. Se forem identificados restos humanos, a investigação precisará observar critérios científicos e éticos. O tratamento de sepultamentos históricos não pode ser reduzido à curiosidade pública.
A identificação individual de uma pessoa morta há quase três séculos é uma tarefa complexa. Depende de documentação, datação, contexto arqueológico e elementos comparativos confiáveis. Não basta encontrar um esqueleto masculino do século XVIII e batizá-lo de Anhanguera.
A história de Goiás já produziu mitos suficientes. Não precisa fabricar um cadáver para completar a coleção. Talvez a pergunta mais importante não seja apenas onde estão os ossos de Anhanguera, mas por que demoramos tanto para olhar com atenção para o lugar onde ele terminou seus dias.
Se a igreja do Rosário não guardar o corpo do bandeirante, será que Goiás finalmente compreenderá que o verdadeiro tesouro de Buenolândia nunca esteve debaixo do chão?




