A vitória do MDB em Goiás desmonta a tentativa de reescrever Iris

A resposta mais eloquente ao equívoco de se tentar reinterpretar a história do líder emedebista veio das urnas. O MDB voltou ao topo da política goiana com Daniel Vilela, beneficiário direto da última grande costura política de Iris.

A vitória esmagadora de Daniel Vilela, reeleito governador com mais de 59% dos votos válidos, devolve ao MDB de Maguito Vilela e Iris Rezende o protagonismo da política goiana. Há, porém, uma simbologia ainda maior: o resultado coroa uma das últimas — talvez a última — grandes articulações políticas de Iris. Foi ele quem, em maio de 2021, avalizou a aliança entre Daniel e Ronaldo Caiado, movimento que levou o filho de Maguito à vice-governadoria em 2022 e abriu o caminho que agora o reconduziu, pelas urnas, ao comando de Goiás.

Por isso, foi especialmente lamentável assistir à tentativa de Ana Paula Rezende de transportar a memória do pai para o palanque do PL. Ao abandonar o MDB e tornar-se vice na chapa liberal, a filha de Iris fez uma escolha política legítima e pessoal. O problema surgiu quando tentou oferecer a biografia do pai como aval para seu novo projeto, chegando a sustentar uma suposta identidade de princípios entre o emedebista e Jair Bolsonaro. Nesse ponto, deixou de falar apenas sobre suas escolhas e passou a reinterpretar uma história que pertence à memória política de Goiás.

E os fatos históricos tornam essa construção particularmente contraditória. Iris foi cassado pela ditadura militar em 1969 e permaneceu dez anos afastado compulsoriamente da política. Bolsonaro, por sua vez, construiu parte de sua trajetória pública exaltando o regime militar. Tentar aproximar essas duas biografias exigia contorcionismo político demais para produzir credibilidade.

O resultado foi perverso até para a memória que Ana Paula pretendia reivindicar. Iris praticamente desapareceu da campanha daqueles que efetivamente herdaram sua construção partidária, porque qualquer menção ao seu nome passou a alimentar uma disputa artificial sobre seu legado. Sua história acabou confinada justamente ao palanque em que soava menos natural.

História de Iris é de coerência

Para emedebistas goianos e que estiveram ao lado de Iris Rezende durante boa parte de sua trajetória política, Ana Paula tem todo o direito de romper com o MDB, apoiar o PL e construir sua própria trajetória. Não tem, contudo, o poder de reescrever a trajetória do pai para fazê-la caber em suas conveniências eleitorais. Iris atravessou vitórias, derrotas, perseguição e cassação sem abandonar a identidade política que construiu durante décadas.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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