
Projeto “E Se Fosse Sua Mãe?”, criado pelos Estudantes de Atitude do CEPI Professor César Augusto Ceva, ultrapassou os muros da escola, chegou ao Legislativo e deu origem a leis de proteção às mulheres
IPAMERI (GO) —
E se uma ideia criada por estudantes dentro de uma escola pudesse mudar a forma como uma comunidade protege mulheres vítimas de violência?
Em Ipameri, essa pergunta deixou de ser apenas uma reflexão. Virou projeto, mobilização e chegou ao Poder Legislativo, transformando-se em lei.
A história da Rede Sinal Seguro — “E Se Fosse Sua Mãe?” começou no CEPI Professor César Augusto Ceva, a partir da iniciativa dos alunos participantes do Programa Estudantes de Atitude. Sob a coordenação dos professores Viviane Paiva e Valdemir Martins, os jovens transformaram uma inquietação diante da violência contra a mulher em uma proposta concreta de intervenção social.
O que poderia ter terminado como mais um projeto escolar ganhou novos caminhos. A proposta foi encaminhada aos Poderes Legislativos estadual e municipal e passou a integrar a discussão sobre políticas públicas de proteção às mulheres.
Mais do que isso: os próprios documentos das proposições reconhecem a origem da iniciativa. A justificativa apresentada à Assembleia Legislativa de Goiás e à Câmara Municipal registra que “a ideia que originou esta proposição foi desenvolvida pelos Estudantes de Atitude, do CEPI Prof. César Augusto Ceva, no Município de Ipameri”.
Esse registro oficial transforma a história em algo ainda mais significativo: não foi apenas uma escola falando sobre cidadania. Foram estudantes exercendo cidadania.
QUANDO A INDIGNAÇÃO ENCONTRA O PROTAGONISMO JUVENIL
A violência contra a mulher atravessa diferentes espaços da sociedade. Para muitas vítimas, porém, pedir ajuda pode ser extremamente difícil quando o agressor está próximo ou quando existe o medo de ser descoberta.
Foi diante dessa realidade que os estudantes começaram a pensar em uma questão essencial:
Como criar uma maneira de uma mulher pedir socorro sem precisar anunciar que está em perigo?
A resposta foi a criação de uma rede de estabelecimentos e instituições preparados para oferecer um primeiro acolhimento seguro e discreto. Assim nasceu a Rede Sinal Seguro.
A proposta prevê que locais presentes no cotidiano da população possam se transformar em Pontos Sinal Seguro, ampliando os espaços onde uma mulher pode encontrar apoio. Entre os estabelecimentos que podem participar voluntariamente estão farmácias, supermercados, padarias, restaurantes, academias, salões de beleza, hotéis, instituições religiosas, escolas, universidades, centros comunitários, shopping centers, lotéricas e postos de combustíveis, entre outros.
UM PEDIDO DE SOCORRO QUE NÃO PRECISA SER GRITADO
Um dos aspectos mais inovadores da proposta está na possibilidade de a vítima solicitar auxílio de maneira discreta.
A lógica é simples: uma mulher pode estar em uma situação na qual não consegue falar abertamente sobre o que está acontecendo, mas pode conseguir fazer um sinal. Se aquela comunidade estiver preparada para reconhecê-lo, um estabelecimento comum pode se transformar em uma porta de entrada para a rede de proteção.
Identificado o pedido de auxílio, o estabelecimento participante deverá, sempre que possível, conduzir a vítima para um local seguro, preservar sua integridade física e emocional, acionar os órgãos competentes, agir com discrição e seguir os protocolos estabelecidos pelo programa.
DE PROJETO ESCOLAR A POLÍTICA PÚBLICA
Talvez a parte mais surpreendente dessa história esteja na trajetória percorrida pela ideia.
Ela nasceu na escola, foi desenvolvida pelos estudantes, acompanhada pelos professores, transformada em proposta e chegou às instituições responsáveis pela construção e execução de políticas públicas.
A iniciativa alcançou o Poder Legislativo, o Poder Executivo, o Ministério Público e a Polícia Militar, ampliando a discussão sobre mecanismos de proteção às mulheres.
DUAS LEIS: UMA CONQUISTA QUE ULTRAPASSA A ESCOLA
A dimensão da conquista fica ainda maior quando se observa que a proposta ultrapassou a esfera escolar e municipal.
A iniciativa dos estudantes deu origem a uma legislação estadual e uma legislação municipal voltadas à criação de mecanismos de apoio e proteção às mulheres.
São duas conquistas em diferentes níveis do Poder Legislativo que demonstram a força de uma ideia quando jovens encontram espaço para participar da construção da sociedade.
A proposta estadual prevê ainda a articulação entre municípios, Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, instituições de ensino, organizações da sociedade civil, organizações não governamentais e iniciativa privada.
Ou seja, a ideia criada pelos estudantes não propõe uma ação isolada. Propõe uma rede.
O PAPEL DA ESCOLA: ENSINAR CIDADANIA NA PRÁTICA
A experiência do CEPI Professor César Augusto Ceva coloca em evidência uma questão fundamental da educação contemporânea: qual é o impacto de uma escola quando seus estudantes são estimulados não apenas a aprender sobre os problemas sociais, mas a buscar soluções para eles?
Nesse projeto, o protagonismo juvenil deixou de ser apenas um conceito pedagógico. Ganhou forma concreta.
Os estudantes observaram um problema social, discutiram alternativas, construíram uma proposta e buscaram os caminhos institucionais necessários para transformá-la em política pública.
Nesse processo, o papel dos professores Viviane Paiva e Valdemir Martins foi fundamental na coordenação e no acompanhamento da iniciativa.
A experiência demonstra que projetos de educação cidadã podem produzir resultados que extrapolaram avaliações, trabalhos escolares e atividades de sala de aula.
Podem produzir transformação social.
UMA REDE QUE PRECISA CHEGAR À COMUNIDADE
A aprovação da legislação representa uma conquista importante, mas também inaugura uma nova etapa.
O desafio agora é fazer com que a Rede Sinal Seguro seja conhecida, compreendida e incorporada pela comunidade.
O projeto prevê capacitação dos estabelecimentos participantes, identificação dos Pontos Sinal Seguro, materiais educativos e campanhas permanentes de conscientização.
A intenção é que a proteção não fique restrita aos órgãos públicos, mas esteja também nos espaços onde a vida acontece todos os dias: na farmácia, no mercado, na escola, no salão de beleza, na igreja, no restaurante e no comércio.
QUANDO OS JOVENS MOSTRAM QUE PODEM MUDAR A REALIDADE
A história da Rede Sinal Seguro é, ao mesmo tempo, uma história de enfrentamento à violência contra a mulher e de educação para a cidadania.
É a história de estudantes que olharam para um problema e decidiram não permanecer indiferentes.
É a história de professores que acreditaram na capacidade dos jovens de participar da construção de soluções.
E é a história de uma ideia que percorreu um caminho incomum: nasceu entre estudantes, ganhou força na escola, chegou à sociedade e alcançou o Poder Legislativo.
Os documentos das proposições estadual e municipal registram expressamente que a iniciativa nasceu com os Estudantes de Atitude do CEPI Professor César Augusto Ceva, apresentando-a como demonstração de protagonismo juvenil e compromisso da comunidade escolar com soluções inovadoras para o enfrentamento da violência contra a mulher.
Por isso, talvez a pergunta que dá nome ao projeto precise ser feita por toda a sociedade:
E SE FOSSE SUA MÃE?
Se fosse sua mãe.
Sua filha.
Sua irmã.
Sua amiga.
Você gostaria que elas encontrassem uma comunidade preparada para reconhecer seus pedidos de ajuda?
Foi para responder a essa pergunta que estudantes de Ipameri decidiram agir.
E a resposta deles já ultrapassou os muros da escola.
Virou uma rede.
Virou mobilização.
E virou lei.



