Marconi perdeu a capacidade de “ouvir” o recado das ruas e das urnas e Wilder gestou o marqueteiro intérprete

O senador Wilder Morais parece ter contratado não um marqueteiro, e sim um intérprete. O candidato do PL fala, mas quem “traduz” o que diz é Marcelo Vitorino

Marconi Perillo governou Goiás por 20 anos — mais do que o governo de Getúlio Vargas (a ditadura não começou em 1937, e sim em 1930, com o golpe de Estado que derrubou um presidente eleito, Washington Luís). Por que se diz 20 anos, se o tucano foi eleito quatro vezes — o que equivale a 16 anos?

Porque ao eleger o sucessor, a “pedra” Alcides Cidinho Rodrigues, Marconi Perillo foi, de alguma forma, responsável por seu governo. Depois, romperam. De acordo com uma fonte ligada a Cidinho, o ex queria mandar nas chaves dos cofres da gestão. Barrado pelo secretário da Fazenda, Jorcelino Braga, o ex começou a criticar o governador eleito.

Políticos, sabem os historiadores, devem ser avaliados pela média. Porque, se avaliados pelos extremos, dificilmente serão compreendidos de maneira ampla. Mas, sim, ditadores, como Stálin, Hitler e Mao Tsé-tung, devem ser avaliados pelos extremos. Porque foram extremos.

O distanciamento de Goiás e dos goianos — consta que Carlos Maranhão, geólogo que era um gênio do marketing (poucos liam pesquisas tão bem), o alertou a respeito —, acompanhado de um governo talvez menos republicano, gestou duas derrotas para o Senado. chegou a hora da terceira?

Por isso, é preciso admitir que Marconi Perillo fez dois governos inspirados, entre 1999 e 2006. Os dois últimos, entre 2011 e 2018, foram pouco inspirados.

Nos dois últimos governos, pensando mais em Paris do que em Aparecida, Marconi Perillo se tornou um gestor pouco focado. Havia, por assim dizer, um cansaço pessoal. Por isso não parecia ter mais sintonia com Goiás, com seus contemporâneos. Estava noutra vibe — de olho na “metrópole” paulistana (e seus bons restaurantes e vinhos).

Cansado de Goiás e dos goianos, Marconi Perillo foi ficando entediado e impaciente. Ao se tornar um bon vivant, convivendo com as elites (não com a turma do poire, e sim a do Romanée-Conti), Goiás e os goianos, com sua simplicidade, começaram, possivelmente, a irritá-lo.

Ao pensar em São Paulo, para onde acabou se mudando, certamente ficava incomodado com quem lhe trazia problemas de Águas Lindas, Posse Bonópolis.

Vários de seus auxiliares — tinha alguns de alta qualidade, como Giuseppe Vecci, José Paulo Loureiro, Carlos Maranhão (falecido), José Taveira (falecido) e Jalles Fontoura —, se quiserem e puderem, podem atestar o que se está dizendo. Em on, dada a campanha deste ano, nada dirão. Em off, até podem falar.

O distanciamento de Goiás e dos goianos — consta que Carlos Maranhão, geólogo que era um gênio do marketing (poucos liam pesquisas tão bem), o alertou a respeito —, acompanhado de um governo talvez menos republicano, gestou duas derrotas para o Senado.

Em 2018, o “paulistinha” Marconi Perillo ficou em quinto lugar para o Senado — atrás de Vanderlan Cardoso (1.729.637 votos), Jorge Kajuru (1.557.415), Wilder Morais (796.387) e Lúcia Vânia (519.691). A votação do tucano foi pífia: 416.613 votos.

No mesmo ano, o candidato do PSDB a governador, José Eliton, ficou em terceiro lugar, com uma votação anódina. Pelo visto, Marconi Perillo não conseguia mais eleger uma pedra — o Cidinho de Rio Verde (e Posse).

É raro Marconi Perillo falar do presente. Não está errado ao falar do que fez, mas não pode circunscrever-se a isto. Os benefícios foram feitos com dinheiro público, e não privado. Por isso, os eleitores não dão muito valor no político que fica o tempo inteiro falando que fez aquilo e assado.

Quatro anos depois, em 2022, o segundo revés. Havia apenas uma vaga para o Senado e o empresário Wilder Morais (PL), surfando nas ondas do bolsonarismo, foi eleito, empurrado. Por sinal, com uma votação baixa — 799.022 votos. Marconi Perillo obteve 626.662 votos.
Vale o registro de que, de tão enfraquecido, o PSDB de Marconi Perillo não ousou lançar candidato a governador em 2022.

Nas duas eleições, Marconi Perillo não quis ouvir as pessoas mais realistas de seu círculo, que recomendavam que disputasse mandato de deputado federal. Assim, poderia permanecer no jogo político e, tendo mandato, com mais força e prestígio.

Num ensaio clássico, a historiadora americana do norte Barbara W. Tuchman, escreveu que, a partir de determinado momento, por se julgarem poderosos — deuses —, políticos não costumam mais ouvir, exceto uma voz “interior” — que “diz” que podem tudo e não precisam de ninguém, pois todos os demais é que precisam dele.

Talvez seja o caso de Marconi Perillo. Talvez seja o caso de vários outros políticos, como Jair Bolsonaro, José Serra, Aécio Neves, Ibaneis Rocha.

Na eleição de 2026, que ocorrerá daqui a um mês e 11 dias, o tucano decidiu disputar o governo do Estado. Mesmo tendo sido governador quatro vezes, e ser o mais conhecido dos postulantes, aparece em segundo lugar (nas pesquisas sérias) — bem distante do primeiro colocado, o governador Daniel Vilela, do MDB.

Marconi Perillo corre o risco de ser superado até mesmo pelo senador Wilder Morais. Uma nova derrota pode retirar o tucano da política estadual. Há a possibilidade de se tornar uma espécie de novo Iris Rezende.
Derrotado três vezes por Marconi Perillo, Iris Rezende se tornou, de político estadual e até nacional, um político municipal. O tucano poderá repeti-lo, no caso de mais uma derrota. Consta, inclusive, que poderá disputar a Prefeitura de Goiânia, de Palmeiras de Goiás ou de Pirenópolis, em 2028, daqui a dois anos e um mês.
De alguma forma, Marconi Perillo se tornou aquilo que combateu. Quer dizer, se tornou o “novo” Iris Rezende. Irizou-se. O “filho” pode repetir o “pai”.
(Que não se engane o leitor e o eleitor: o pai político do tucano é o veterano político de Cristianópolis, e não Henrique Santillo. Este jamais aprovaria, por exemplo, o fato de o ex-auxiliar se apresentar, por interesse eleitoreiro, como “de direita”.)

Mas, afinal, Marconi Perillo é um político “pequeno”? Não. É “grande” (sua história não é só negativa). O que o apequena é ter perdido a capacidade de ouvir as ruas e de entender o recado tanto das pesquisas quanto das urnas. Não soube renovar as “ideias” de seu guarda-roupa mental.

O que as pesquisas (repita-se: as sérias, não as “inexatas”) estão dizendo, com o máximo de clareza, é: a rejeição de Marconi Perillo é incontornável. Segundo a pesquisa do instituto Quaest — este, sim, é sério —, sua rejeição é de 46%. O número é altíssimo.

Há outro problema, uma espécie de “marconite aguda” — uma “gripe”, seguida de “febre”, que acometeu tanto Marconi Perillo quanto alguns de seus apoiadores relativamente sóbrios (mas não realistas como Otavinho Lage e, sobretudo, Jalles Fontoura).

Marconi Perillo se tornou um prisioneiro do passado e, como tal, parece não ter olhos para o presente — que é onde todos os contemporâneos “vivem”.

É muito raro Marconi Perillo falar do presente. Está sempre de olho no retrovisor. Não está errado ao falar do que fez, mas não pode circunscrever-se a isto. Os benefícios, sabem os eleitores, foram feitos com dinheiro público, e não privado. Por isso, os eleitores não dão muito valor no político que fica o tempo inteiro falando que fez aquilo e assado.

Há marcas, que não são tanto físicas, mas que são decisivas. Por exemplo: quem realmente melhorou a segurança pública em Goiás? Ronaldo Caiado e Daniel Vilela. Marconi Perillo não tem um discurso adequado a respeito.
Ao contrário de Marconi Perillo, o candidato do MDB a governador, Daniel Vilela, está focado no presente, em resolver problemas reais. É seu grande trunfo. A segurança pública, para ficar num exemplo, tem sido mantida de maneira exemplar.

Daniel Vilela é um político que opera para melhorar o presente, porque o futuro não existe, é apenas uma possibilidade. Quem quiser melhorar o futuro tem de começar a melhorar o presente. Por isso o foco do governador é o presente. Daí sua sintonia com os eleitores — revelada por institutos de pesquisa sérios, como o Quaest e o Paraná Pesquisas.

Nos debates, se fosse permitido, o que não é, o marqueteiro Marcelo Vitorino poderia aparecer para explicar o que o senador Wilder Morais “quis” dizer. Em tom de blague, talvez seja possível sugerir: “Basta de intermediários, Marcelo Vitorino para candidato a governador de Goiás”

Quem fala só do passado está, politicamente, “morto”. Quem fala demais do futuro não quer resolver os problemas do presente. (O filósofo britânico Isaiah Berlin, em ensaios portentosos, sempre desconfiou dos “apóstolos do futuro”.)
Wilder Morais e seu intérprete.

Se Marconi Perillo é um político do passado, Wilder Morais, do PL, é uma ausência. Uma página em branco.

Talvez, como empresário, Wilder Morais, dono da Construtora Orca e sócio do shopping Bougainville, seja um homem do presente. Mas, como político, ninguém sabe direito de qual tempo é. Talvez seja da Lua. Nefelibata. Talvez.
O fato é que, quando fala, quase ninguém entende a mensagem. Não só pela voz pastosa, mas pela mensagem confusa, quase beirando o ilógico.

O eleitor, para entender o que Wilder Morais fala, precisa de um “tradutor” que o observe com o máximo de atenção.

Alguém, para entender o que Wilder Morais fala, precisa de um “tradutor”. E o “intérprete” apareceu — é o marqueteiro Marcelo Vitorino.
Num vídeo, divulgado em rede social, Marcelo Vitorino, profissional gabaritado, fez uma ginástica incrível para explicar a dificuldade de seu contratante com as palavras (disse que o político de 58 anos vai evoluir). Ele se tornou seu “tradutor” oficial e exclusivo.

Nos debates, se for permitido, o que não é, Marcelo Vitorino poderia aparecer ao seu lado para explicar o que Wilder Morais “quis” dizer.

Em tom de blague, talvez seja possível sugerir: “Basta de intermediários, Marcelo Vitorino para candidato a governador de Goiás”.

Jornal Opção

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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