E a crise chegou nas Casas Bahia

A história do varejo brasileiro e do carnê

O brasileiro sempre quis ter geladeira, televisão e sofá novo.

O problema é que o dinheiro nunca veio junto.

Foi aí que nasceu o carnê.

O começo: o polonês que inventou o “pague depois”

Samuel Klein chegou ao Brasil em 1952 depois de sobreviver ao Holocausto. Começou vendendo cobertor de porta em porta no ABC paulista, principalmente para nordestinos que vinham trabalhar nas fábricas de carro.

Quando o cliente falava “não tenho dinheiro agora”, ele respondia:

“Leva, paga depois.”

Em 1957 abriu a primeira loja e batizou de Casa Bahia (depois Casas Bahia). O nome era uma homenagem aos baianos. O negócio, no fundo, era outro: vender confiança.

Na mesma época, em Franca, um casal abria o Magazine Luiza com a mesma lógica.

Vender para quem o banco não olhava.

Como funcionava o esquema

O lucro não estava só na geladeira.

Estava nos juros do carnê.

O cliente comprava, levava pra casa e voltava todo mês na loja pra pagar a prestação.

Enquanto pagava, o vendedor já oferecia outra coisa.

Era um ciclo: o cara entrava pra pagar e saía com mais dívida (e mais produto).

Por décadas, 70%, 80%, às vezes quase 90% das vendas das grandes redes vinham do carnê.

A loja era, na prática, um banco disfarçado de magazin.

O auge

Nos anos 70, 80 e 90 o modelo explodiu.

Casas Bahia, Magazine Luiza, Ponto Frio, Colombo… todas cresceram em cima do mesmo combustível: crédito fácil pra quem não tinha nome no banco.

O brasileiro passou a ter acesso a bens que antes só a classe média alta comprava.

Foi inclusão pelo consumo.

O sonho parcelado.

Quando o cartão chegou

Nos anos 2000 os bancos entraram com força.

Cartão de crédito, CDC, cheque especial.

As redes fizeram parceria (Casas Bahia com Bradesco, Magalu com Itaú) e o carnê perdeu um pouco de espaço.

Mas nunca morreu de vez.

Porque sempre existiu uma fatia grande de gente que o banco continua rejeitando.

Pra essa galera, o carnê sempre foi a única porta.

O que está acontecendo agora

Hoje o carnê voltou a ser arma de guerra.

As redes digitalizaram, criaram carnê online e usam ele pra capturar quem está sem limite no cartão.

Só que o cenário mudou.

A renda apertou.

O dinheiro que ia pra prestação da geladeira começou a ir pro tigrinho e pras compras da Shopee e Shein.

O cliente quebrou primeiro.

Aí a loja quebrou junto.

Resumo da ópera

O varejo brasileiro de eletrodomésticos e móveis cresceu vendendo sonho parcelado.

Samuel Klein descobriu que o pobre paga se a parcela couber no bolso.

E construiu um império em cima disso.

Funcionou por setenta anos.

Até o bolso do brasileiro não aguentar mais.

Hoje a conta chegou.

E quem tá pagando é o povo.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

Alan inicia seus trabalhos com o único objetivo, trazer a todos informação de qualidade, com opinião de pessoas da mais alta competência em suas áreas de atuação.

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