
A cidade de Catalão, atualmente reconhecida por seu desenvolvimento e hospitalidade, foi palco de alguns dos episódios mais violentos da história goiana. Entre eles está o assassinato do jornalista e farmacêutico Antero Costa Carvalho, ocorrido em 16 de agosto de 1936, um dos casos mais marcantes e controversos do Estado.
Mesmo passadas décadas, o episódio ainda desperta debates entre pesquisadores e historiadores. A morte de Antero ocorreu em um contexto marcado por fortes disputas políticas, influência de grupos locais de poder e fragilidade das instituições responsáveis pela aplicação da justiça.
Natural de Jataí, Antero Costa Carvalho mudou-se para Campo Grande, onde se destacou como farmacêutico, jornalista e participante dos movimentos políticos que defendiam a autonomia da região sul de Mato Grosso. Após os acontecimentos ligados à Revolução Constitucionalista de 1932, deixou a cidade e fixou residência em Catalão ao lado de Amélia Nazar e seus filhos.
Em Catalão, tornou-se proprietário de uma farmácia e conquistou respeito pela dedicação à comunidade, especialmente pelo atendimento prestado às famílias mais humildes. Também colaborava com jornais locais e participava ativamente da vida cultural da cidade.
Em pouco tempo, Antero passou a ser uma figura conhecida e influente entre os moradores. Sua atuação como jornalista e sua proximidade com diversas famílias fizeram dele uma pessoa bem relacionada, mas também inserida em um ambiente político marcado por rivalidades e tensões.
No dia 26 de maio de 1936, o fazendeiro Albino Felipe do Nascimento foi assassinado em uma estrada rural enquanto retornava para casa. O crime causou grande comoção na cidade e desencadeou uma investigação cercada de controvérsias.
Inicialmente, as suspeitas recaíram sobre familiares da vítima. Entretanto, rumores e especulações passaram a apontar Antero Costa Carvalho como possível mandante do homicídio. As acusações baseavam-se em comentários e conjecturas que circulavam entre moradores da cidade, sem que houvesse provas materiais conclusivas.
Com a chegada de um delegado especial para conduzir as investigações, o rumo do inquérito mudou. Um dos principais suspeitos, Francisco dos Reis, conhecido como Chico Prateado, foi preso e, após interrogatórios realizados sob circunstâncias posteriormente questionadas por estudiosos e pesquisadores, declarou ter cometido o crime a mando de Antero.
Com base nessas declarações, Antero foi preso preventivamente. Diversas inconsistências presentes no inquérito policial levantaram dúvidas sobre a credibilidade da investigação. Relatórios, depoimentos e laudos técnicos apresentavam divergências que alimentaram controvérsias ao longo dos anos.
A situação tornou-se ainda mais delicada diante do clima de revolta existente na cidade. Parte da população acreditava que os responsáveis pela morte de Albino Felipe deveriam ser punidos imediatamente, enquanto outras pessoas questionavam a condução do processo.
Na noite de 16 de agosto de 1936, antes que o caso fosse julgado pela Justiça, um grupo de homens retirou Antero da cadeia pública de Catalão. Sem resistência das autoridades responsáveis pela custódia do preso, ele foi levado pelas ruas da cidade e submetido a agressões físicas durante o trajeto.
Testemunhos da época relatam que Antero sofreu espancamentos e ferimentos sucessivos até ser morto nas proximidades da atual Rua da Grota. O episódio chocou a população local e passou a ser lembrado como um dos mais graves casos de violência coletiva da história de Goiás.
Após sua morte, o corpo foi recolhido por familiares e amigos. Os processos relacionados tanto ao assassinato de Albino Felipe quanto ao linchamento de Antero acabaram desaparecendo dos arquivos judiciais e cartoriais, dificultando futuras apurações.
A ausência de documentação oficial completa contribuiu para que diversas interpretações surgissem ao longo das décadas. Historiadores, pesquisadores e escritores que estudaram o caso apontam falhas na investigação, interferências políticas e omissões de autoridades públicas como fatores que impediram o completo esclarecimento dos fatos.
O assassinato de Antero Costa Carvalho permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história de Catalão e do jornalismo goiano. Sua morte tornou-se símbolo das dificuldades enfrentadas pela liberdade de imprensa e da fragilidade das instituições em períodos marcados por forte influência política e conflitos locais.
Quase um século depois, o caso continua cercado por perguntas sem respostas definitivas, permanecendo como um dos grandes mistérios da história de Goiás.



