
Por Giovanna Campos do Jornal Opção
Ao defender o trabalho infantil, Romeu Zema expõe a visão elitista de uma extrema direita que naturaliza a exploração da pobreza e jamais imporia aos próprios filhos a realidade que defende para crianças pobres.
A fala de Romeu Zema defendendo a flexibilização do trabalho infantil não foi um “deslize”. Tampouco um comentário isolado retirado de contexto. Ela revela, de forma brutalmente honesta, a visão de mundo de uma parcela da extrema direita brasileira — especialmente daquela representada pelo Partido Novo: elitista, socialmente insensível e profundamente desconectada da realidade do povo.
Quando Zema afirma que “a esquerda criou a noção de que trabalhar prejudica a criança”, ele não está falando do filho do empresário que ajuda simbolicamente na loja da família durante as férias.Ele está falando, na prática, da criança pobre. Da criança periférica. Da criança preta. Da criança que vende bala no sinal, carrega peso em feira, trabalha em lavoura, lava prato em troca de comida ou abandona a escola para complementar renda dentro de casa.
Porque ninguém acredita seriamente que um político milionário colocaria os próprios filhos de 10 ou 12 anos para enfrentar ônibus lotado, sol de 40 graus ou trabalho braçal para “aprender o valor do esforço”. O trabalho infantil defendido pela elite liberal nunca é para os seus. É sempre para os filhos dos outros.
E é justamente aí que mora a perversidade desse discurso.
A extrema direita brasileira transformou desigualdade em virtude moral. Sofrimento virou “formação de caráter”. Exploração virou “empreendedorismo”. Miséria virou “meritocracia”. Há uma tentativa permanente de romantizar aquilo que historicamente foi uma tragédia social brasileira.
O Brasil demorou décadas para reduzir índices de trabalho infantil porque entendeu, ainda que tardiamente, algo básico: criança tem que estudar, brincar, se desenvolver e existir como criança — não servir de mão de obra barata para sustentar um país desigual. Segundo dados citados após a repercussão da fala de Zema, o país ainda possui mais de 1,6 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil.
Defender retrocessos nesse campo não é “liberdade econômica”. É atraso civilizatório.
O mais impressionante é que o Partido Novo tenta vender uma imagem de modernidade técnica enquanto frequentemente produz alguns dos quadros mais intelectualmente frágeis da política nacional. Sob o verniz de “gestão” e “eficiência”, esconde-se um pensamento simplório sobre problemas sociais complexos.
O partido que prometia renovar a política rapidamente virou abrigo de figuras que orbitam o bolsonarismo sem coragem de assumir integralmente sua identidade ideológica. Em vários momentos, o Novo tentou ocupar o espaço de uma direita “racional”, mas frequentemente terminou associado ao negacionismo social, ao ultraliberalismo desumanizado e à retórica antipolítica.
A trajetória recente de Zema ilustra isso com clareza. O governador que tentou construir imagem de gestor moderado passou a radicalizar o discurso nacionalmente na tentativa de disputar espaço no eleitorado da extrema direita após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Nos últimos anos, aproximou-se de pautas bolsonaristas, intensificou ataques ao STF e adotou um discurso cada vez mais agressivo ideologicamente.
Mas existe um problema para Zema e para o Novo: o Brasil real não cabe nessa caricatura neoliberal de condomínio de luxo.
O povo brasileiro sabe o que é exploração infantil porque viveu isso. Sabe o que é abandonar escola para trabalhar cedo. Sabe o que significa crescer sem oportunidade. Por isso, a tentativa de transformar precariedade em virtude encontra resistência social profunda fora das bolhas ideológicas da extrema direita digital.
E talvez seja justamente essa a maior limitação política do Novo: sua absoluta incapacidade de compreender o Brasil popular.
O partido jamais conseguiu construir presença social robusta, representação nacional consistente ou enraizamento popular significativo. Fora das redes sociais e de nichos urbanos de classe média alta, sua relevância política permanece limitada. Mesmo depois de anos de exposição nacional, segue sendo um partido pequeno, eleitoralmente restrito e incapaz de dialogar com as necessidades concretas da maioria trabalhadora.
Isso acontece porque sua visão de país frequentemente parte do desprezo pelas políticas sociais, pela organização do trabalho e pelos mecanismos mínimos de proteção coletiva. Há uma obsessão quase religiosa pelo indivíduo empreendedor, como se todos partissem do mesmo ponto numa sociedade marcada por desigualdade histórica extrema.
No fundo, o discurso sobre trabalho infantil revela mais do que uma opinião infeliz. Revela um projeto de sociedade.
Uma sociedade onde direitos trabalhistas são vistos como exagero. Onde pobreza é tratada como falha moral individual. Onde a elite econômica acredita ter autoridade para ensinar “resiliência” às crianças pobres sem jamais abrir mão dos próprios privilégios.
O Brasil não merece retroceder para esse tipo de pensamento.
O país precisa discutir educação, emprego digno, desenvolvimento social e combate à desigualdade — não reabilitar ideias que pertencem ao século passado. A infância brasileira já foi explorada demais para virar laboratório ideológico de políticos em busca de aplauso fácil em podcasts.
A fala de Zema não representa modernidade. Representa atraso.
E o povo brasileiro é muito maior, mais inteligente e mais digno do que essa visão pequena, higienista e cruel de país.



