
Josimar Salum
Há um problema sério no meio evangélico contemporâneo que precisa ser tratado com clareza: a tentativa constante de misturar a antiga aliança com a nova aliança, como se ambas fossem compatíveis para a vida dos discípulos de Jesus.
Essa mistura não é algo novo. Ela já existia nos dias dos apóstolos e foi confrontada de forma direta nas Escrituras. O que vemos hoje é a repetição do mesmo erro, agora revestido de linguagem moderna, títulos e estruturas religiosas que muitas vezes ignoram aquilo que Deus estabeleceu em Cristo.
A Palavra de Deus afirma claramente que houve uma mudança de aliança. O autor de Hebreus declara: “Dizendo nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho e se envelhece, perto está de desaparecer” (Hebreus 8:13). Isso não é uma interpretação, é uma afirmação direta da Bíblia.
A antiga aliança, dada por meio da Lei, tinha um propósito definido: revelar o pecado, apontar para a necessidade de redenção e servir como sombra das coisas futuras. “Porque a lei, tendo sombra dos bens futuros…” (Hebreus 10:1). Ela apontava, mas não era o cumprimento.
Com a vinda de Jesus Cristo, não houve um ajuste da antiga aliança, mas o estabelecimento de uma nova. O próprio Senhor afirmou: “Ninguém põe vinho novo em odres velhos…” (Mateus 9:17). O ensino é claro: o que é novo não pode ser contido dentro da estrutura do que envelheceu.
Mesmo assim, muitos insistem em reconstruir práticas, modelos e pensamentos da antiga aliança dentro daquilo que foi estabelecido em Cristo. Reintroduzem elementos da Lei como se fossem mandamentos para os discípulos, criando uma mistura que as Escrituras não autorizam.
Um dos exemplos mais evidentes é o uso obrigatório do dízimo como regra espiritual. O dízimo fazia parte da estrutura da Lei, ligado ao sustento do sacerdócio levítico, ao templo e à nação de Israel. No entanto, nas cartas apostólicas não há mandamento para que os discípulos de Jesus pratiquem o dízimo como obrigação.
Muitos tentam sustentar essa prática recorrendo a textos como Mateus 23:23. No entanto, esse texto não é um mandamento para os discípulos. Ali, Jesus fala aos escribas e fariseus, que ainda estavam debaixo da Lei. Ele não está estabelecendo uma instrução para aqueles que viveriam após a Sua obra consumada, mas confrontando líderes que operavam dentro da antiga aliança.
Outros utilizam Hebreus 7 para justificar a prática do dízimo. Porém, o texto não apresenta um mandamento para os discípulos. Ele explica a superioridade do sacerdócio de Cristo em relação ao levítico, utilizando Abraão e Melquisedeque como argumento teológico. O objetivo do texto é revelar a mudança de sacerdócio e, consequentemente, a mudança da Lei (Hebreus 7:12), não estabelecer uma prática financeira para os discípulos.
Portanto, nem Mateus 23 estabelece um mandamento para os discípulos, nem Hebreus 7 ensina que os discípulos devem praticar o dízimo.
Nas Escrituras do Novo Testamento, não há regras ou mandamentos que imponham o dízimo aos discípulos de Jesus. Essa ausência não é acidental — ela é consistente em todo o ensino apostólico. O padrão apresentado é outro: dar de forma voluntária, conforme o coração, com liberdade, generosidade e entendimento.
O ensino é explícito e não deixa espaço para imposição: contribuição voluntária, segundo o coração, sem obrigação, como está escrito: “Cada um contribua segundo propôs no coração, não com tristeza ou por necessidade…” (2 Coríntios 9:7).
E isso não é usado como justificativa para a falta de contribuição. Pelo contrário, esse ensino enfatiza a generosidade e expõe a avareza. A liberdade não é licença para reter, mas um chamado para dar com sinceridade, disposição e entendimento.
Portanto, o modelo estabelecido para os discípulos não é baseado em porcentagens determinadas pela Lei, mas em uma disposição interior que procede da fé — uma vida marcada pela generosidade, não pela obrigação, e pela liberalidade, não pela avareza.
Outro exemplo é a tentativa de reconstruir um modelo de sacerdócio semelhante ao da antiga aliança, criando uma separação entre “clero” e povo. Entretanto, as Escrituras afirmam que todos os que estão em Cristo são feitos sacerdotes: “vós sois sacerdócio santo” (1 Pedro 2:5). Não há base para restaurar uma classe sacerdotal como na Lei.
Também se observa a reintrodução de práticas como “altar físico”, campanhas baseadas em votos, objetos consagrados e a ideia de lugares mais santos do que outros. No entanto, está escrito que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas (Atos 7:48), e que os discípulos são o templo.
Além disso, muitos retomam princípios da Lei como base de relacionamento com Deus — troca, mérito, recompensa condicionada — criando uma mentalidade de desempenho. Isso contradiz o ensino apostólico de que a vida em Cristo não se baseia em obras da Lei, mas na fé.
O apóstolo Paulo confrontou diretamente essa mistura na carta aos Gálatas. Ele pergunta: “Recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2). E declara: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei…” (Gálatas 5:4).
Isso mostra que misturar as duas alianças como base de vida não é um detalhe secundário — afeta a própria compreensão da obra de Cristo.
É importante afirmar: a antiga aliança não é descartada como Escritura. Ela revela o caráter de Deus e aponta para Cristo. Mas não foi estabelecida como o modo de vida para aqueles que estão em Cristo após o seu cumprimento. O próprio Senhor disse que veio cumprir a Lei (Mateus 5:17), não mantê-la como aliança vigente.
O problema surge quando aquilo que apontava passa a ser tratado como fundamento, e aquilo que foi estabelecido em Cristo é substituído por práticas que pertencem a um tempo anterior ao seu cumprimento.
As consequências são visíveis: uma vida baseada em obrigação, medo e culpa, em vez de uma vida baseada na fé e naquilo que Deus realizou em Cristo. A pessoa passa a viver tentando alcançar aquilo que já foi concedido, e substitui a obediência que procede da fé por regras externas.
Além disso, se levanta uma estrutura de liderança que muitas vezes se inspira mais na antiga aliança do que no ensino dos apóstolos. Títulos, hierarquias e práticas são adotados sem base clara nas Escrituras do Novo Testamento.
As Escrituras mostram continuidade no propósito de Deus, mas também mostram uma mudança clara na aliança. Não reconhecer isso leva à confusão.
A antiga aliança aponta. A nova aliança estabelece aquilo que Deus realizou em Cristo. A antiga revela a necessidade. A nova apresenta o cumprimento. A antiga prepara. A nova confirma.
Não há como misturar as duas sem distorcer ambas.
O chamado das Escrituras é claro: permanecer naquilo que foi estabelecido em Cristo, viver pela fé e andar segundo o Espírito, sem voltar àquilo que já cumpriu o seu papel no propósito de Deus.
Isso não é um tema secundário. Trata-se da compreensão do evangelho e da vida dos discípulos.



