Mamede Leão paga o preço da polêmica

O ofício de jornalista requer coragem, talento, compromisso, disciplina e estar ciente de que essa atividade, por vezes, pode incomodar. E quem quer ser incomodado? Ninguém gosta, e geralmente são esses que tentam, em diferentes níveis, boicotar, melindrar e dificultar o trabalho daqueles que insistem em atuar nesse ramo. Outra forma de impedir a divulgação de fatos que geralmente expõem e desgastam pessoas, instituições e governos é o suborno e a ameaça. Em ambos os casos, vai da índole e do nível do profissional em ceder ou não. “O verdadeiro jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”, dizia o incrível Millôr Fernandes. Eu vou além e completo: “completar Millôr é muita audácia”… mas, vamos lá. Quem se submete a esse ofício precisa saber pisar em ovos, ciente de que muitos vão se quebrar. Mamede Leão poderia estar tocando sua vida tranquilamente, normalmente, como professor, pensador, escritor e membro da UEG – Universidade Estadual de Goiás. Poderia estar lecionando e escrevendo seus livros, mas ele preferiu também entrar no mundo da comunicação, um mundo difuso e inebriante que muitos têm vontade, desejam, mas nem sempre têm a coragem, o ímpeto e a sagacidade que Mamede teve e tem. Isso parece deixar muitas pessoas incomodadas.

Fazer jornalismo como Mamede faz, se declarando independente e de esquerda e, às vezes (ou quase sempre), provocando a direita, ao meu ver, não contribui tanto para sua jornada e, de quebra, isso parece deixá-la mais tortuosa. Se vou falar aqui da posição política de Mamede, eu sou obrigado a lembrar o incrível Millôr de novo, que num épico Roda Viva respondeu sobre sua briga com Chico Buarque dizendo: “Eu desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”. Tem dias que me pergunto qual é o ganho de Mamede. Cheguei à conclusão de que seu lucro maior é o midiático. Se isso o satisfaz e compensa, isso é com ele.

A minha percepção é que Mamede parece estar em uma areia movediça (hoje a mídia faz isso), que tenta sugá-lo, e ele sempre se safa usando o trunfo da experiência que lhe foi conferida por anos na ativa e por suas posições sempre bem definidas. Ele aprendeu a jogar o jogo e já disse a ele: poucos entregam tanto em prol de uma causa como ele. Pelo que fala, pelo que vive e pelo que representa, já deveria ter sido reconhecido e poderia estar numa condição ainda melhor, política e profissionalmente.

Em Goiás, são poucos os convictos de um ideal que dão a cara como ele. Sem querer desanimá-lo, se não o valorizaram até agora, será que farão isso um dia? Essa é uma questão a ser resolvida pela esquerda, que, para mim, já deixou de ser esquerda há muito tempo. Só sei que a gente só carrega aquilo de que dá conta, e Mamede Leão tem suportado bem; assim sendo, temos que respeitar e reconhecer sua trajetória, há coerência nela. Que eu me lembre, ele nunca arredou um milímetro de suas convicções enquanto um “social-progressista”. Será que eu peguei leve com ele? Seus adversários (se estiverem lendo isso, o que acho pouco provável) devem estar gritando: é comunista, é comunista. Muitos sem saber, de fato, o que é o comunismo. Eis um outro debate para um outro momento.

Quem me conhece sabe: sou a favor do livre-arbítrio, por isso sou católico; nessa condição, defendo integralmente o direito de viver, pensar e se expressar. Sendo claro, sou a favor da liberdade de expressão, não dessa sórdida e famigerada liberdade de agressão que anda sendo aplaudida por muitos incautos; o trágico é que esses acham que tudo é a mesma coisa, e definitivamente não é. Faço esse parêntese porque tenho visto muitos banalizar essa discussão e fazerem aqueles menos esclarecidos pensar que expressão e agressão é a mesma coisa. E não é! Há também os mais esclarecidos que usam isso de má-fé, são uns canalhas irresponsáveis; esse é o admirável mundo novo que vivemos, na tão sonhada sociedade justa que, neste ano eleitoral, ouviremos muito e só será construída com a imprensa exercendo seu papel, publicando fatos e feitos reais, mesmo que eles pareçam irreais. Como o que Mamede denunciou recentemente, ou vais me dizer que é normal um cara, com a mulher, segundo Mamede, enganar centenas de pessoas e ficar tudo bem? Mamede, enquanto jornalista, vem travando uma verdadeira batalha de um homem só. Sua denúncia dá conta de um batalhão de pessoas que foram extorquidas e, até agora, nada de concreto sobre o caso. Dos veículos considerados grandes da cidade, somente a rádio 97,5, através do “Nosso Programa”, de Ricardo Nogueira, pautou o caso.

Se ainda não criaram remédio para curar as misérias humanas, temos que seguir adiante, convivendo com esse tipo de gente e circunstância, que virou manchete nas redes de Mamede e está em muitas rodas da cidade, mesmo sem a maioria dos veículos noticiarem o assunto. O que faço aqui é repudiar algo tão grave quanto o crime denunciado por Mamede. Falo das ameaças que ele recebeu. Ameaça nenhuma deve ser tolerada.

Hoje, o que temos é gente que não sabe ou está esquecendo que ameaça é crime. Está no Código Penal, artigo 147, com detenção prevista de 1 a 6 meses. No Brasil, isso não funciona. Ou você conhece alguém que foi em cana por ameaçar alguém?

Em se tratando de ameaça, nesse caso eu olho sempre para o ser humano: o irmão, o marido, o pai, o tio, o primo, o amigo Mamede, que deve ter sua vida preservada. Mamede paga o preço da polêmica e nunca perguntou quanto é, sempre esteve em dia com seu juízo. Mas por que falar de Mamede? Porque vi a necessidade de mostrar àqueles que só o veem nas polêmicas que existe vida inteligente e produtiva ali, e que, se sua produção jornalística incomoda, é porque ela faz sentido para alguém. Repito: a minha análise é em cima do fato exposto e divulgado por Mamede Leão, que tem total respaldo para fazê-lo, afinal essa também é sua profissão.

Os motivos que levaram ele, enquanto ameaçado, e o ameaçador ao ponto do conflito cabem, na minha “modestíssima” visão, aos operadores do direito e à Justiça se debruçar sobre o caso; estão aí para isso. Segundo Mamede, isso já está em curso, e a expectativa é de um pronunciamento dos órgãos acionados: MP, PC e OAB, que não podem e, com certeza, não vão se omitir; se fizerem isso, ficará muito ruim para o sistema que rege a lei e a ordem na sociedade. Atenho-me à ameaça a um jornalista que tem pleno direito de publicar o que achar adequado à sua editoria.

Como resguarda a lei, se alguém se sentir agredido ou ofendido pelo conteúdo publicado, que use suas prerrogativas de cidadão e busque os caminhos legais para ser reparado moral e financeiramente. Mamede sabe bem o que é isso. Ele já teve experiência dessa natureza e já até com algum infortúnio. É do jogo e ele sabe. Que rolem os dados, que rolem as pedras, mas jamais as cabeças.

Conheço Mamede há 33 anos. Já discuti suas posições e condutas. Enfim, o conheço bem. Sendo assim, tenho uma péssima notícia para seus desafetos: ele é imparável, ele não vai se calar e nem se omitir.

Mamede Leão é do tipo que você nutre por ele só um sentimento: você o ama ou o odeia. Nesse mundo polarizado, parece normal, mas Mamede é assim desde sempre. Sua personalidade não permite nem tolera meio-termo. O fato é que o nome de Mamede Leão, queiram ou não, gostem ou não, está cravado no meio jornalístico catalano. Isso é fato. Podem questionar o que já fez, como fez e até o que deixou de fazer, mas está aí para todo mundo ver, embora muitos não enxerguem ou se finjam de cegos.

Se paira alguma dúvida sobre sua contribuição no jornalismo local, vale lembrar algumas incursões e participações em três meios de comunicação da cidade: o jornal impresso, o rádio e a internet. Negar isso é negar a história.

Por estar envolto a tantas polêmicas, como a que vive agora, talvez o próprio Mamede não se dê conta do tamanho daquilo que ele próprio construiu. Acho que nem seus detratores sabem também. Então, o relato a seguir é quase uma prestação de serviço para ambos e para quem quer entender, sob um prisma diferente, quem é esse paladino que “há tempos” causa na mídia catalana, denunciando as virtudes que perdemos, seja numa operação Ouro Negro, numa venda (que não era venda) da SAE ou agora escancarando um estelionato coletivo.

Dia desses, procurando um arquivo em meu acervo, me deparei com uma gravação de Mamede Leão na Rádio Nova Liberdade 102,7 MHz. Sim, era ele lá. Foram duas ou três edições ao lado de uma bancada de peso; por que não foi adiante? Na época ele explicou, não sei se convenceu, mas ele esteve lá.

Na Cultura, hoje FM, enquanto AM, ele fez programa por uns três anos na antiga 570 kHz; isso ninguém me contou. Eu era o apresentador, ele então vereador comentava os temas mais quentes da semana; foi no primeiro mandato do ex-prefeito Adib Elias. Um tempo depois, já na era digital, transmitindo ao vivo, viralizou pela primeira vez quando bateu boca “ao vivo” com Rodrigão na Top FM, que ele havia começado como Opção FM; o teor exposto naquela briga disse muito de Mamede.

Anos depois, veio outro caso, em que ele se viu numa polêmica ainda maior: a famosa invasão do estúdio da Sucesso FM 97,5, que, por Deus, não virou tragédia, e de onde Mamede foi desligado recentemente, segundo ele, por manter suas convicções.

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, explicou.

Mas antes de tudo isso, se contar muita gente não acredita, Mamede Leão foi dono de revista e jornal impresso, o Folha da Região, isso numa época em que aqui já tinha o Diário de Catalão, do Dickson Ulhôa. Eram dois jornais que circulavam todos os dias na cidade. Um era dele.

No meio digital, ele iniciou tudo, foi o pioneiro. Hoje, dos quatro blogs mais acessados da cidade, pelo menos dois ouviram seus conselhos e suas dicas. Se reconhecem isso eu não sei, e nem é da minha conta. A questão aqui é que quem o ameaça não deve saber dessa ficha corrida de veículos onde atuou, seja como comentarista ou dono.

A estrada percorrida no campo minado do jornalismo é longa, e talvez isso explique o silêncio de muitos veículos em não divulgar esse caso denunciado por ele; o que se ouve, na verdade, é um silêncio conveniente. Sendo bem honesto, isso não é só em Catalão. A mídia no geral é assim. Diferentemente da maioria das pessoas, Mamede Leão é aquele sujeito que paga para ver. Ele parece ter um ímã que atrai pessoas e polêmicas. Já um pouco afastado, vi pessoas com ele e estranhei. Se ele teve algum contato com esse a quem acusa, talvez essa minha estranheza proceda. Mas Mamede é assim, sua autenticidade o notabiliza. Ele convive com muita gente; ele enfrenta situações e riscos sem temor. Seria a coragem intuitiva de um Leão que ele carrega no nome? É bem provável que isso venha de suas origens, as quais eu tive a honra de conhecer e me lembro com muitas saudades.

O resultado desse embate não é entre Mamede e quem ele denuncia; é também um desafio público que está sujeito a danos e que requer a atenção das autoridades, as quais devem também estar atentas, pois, segundo ele, pode haver envolvimento até de facção. Ou seja, o que está colocado para todos é algo sério e precisa de apuração. Os lesados e a comunidade em geral aguardam o desfecho desse imbróglio, sabendo que alguém não vai gostar de seu final. Vamos esperar, de olhos bem abertos. Mamede Leão tem duas opções: se cala, fecha seu canal e vai embora, ou segue de pé denunciando esse e outros casos que virão. Não preciso dizer qual alternativa ele já escolheu. Esse tipo de demanda, em alguma medida, parece movê-lo, parece ser combustível para ele ir adiante buscando a próxima pauta — ou seria polêmica? No caso de Mamede, elas se misturam. De minha parte, cabe repudiar qualquer tipo de ameaça ao jornalista Mamede Leão e a qualquer cidadão que vive em um Estado democrático de direito como nós vivemos. Quem tem ouvidos, que ouça.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

Alan inicia seus trabalhos com o único objetivo, trazer a todos informação de qualidade, com opinião de pessoas da mais alta competência em suas áreas de atuação.

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