Quando o Samba perde o respeito: a frustrante estreia da Acadêmicos de Niterói

A estreia de uma escola no Grupo Especial costuma ser motivo de celebração, superação e conquista. Era a grande oportunidade para a Acadêmicos de Niterói mostrar sua grandeza, encantar o público e honrar o espaço conquistado na elite do Carnaval. No entanto, o que se viu na avenida foi uma apresentação que, além de tecnicamente aquém do esperado, acabou marcada por um enredo controverso e profundamente questionável.

O resultado traduz bem essa realidade. Com 264,5 pontos, a escola ficou distante da campeã Viradouro, que alcançou 270 pontos — uma diferença significativa para quem estreava e precisava provar sua força no Grupo Especial. Mas, mais do que a pontuação, o que pesou foi a percepção pública de que a Acadêmicos de Niterói perdeu a oportunidade de unir e preferiu dividir.

O Carnaval é arte, é cultura popular, é expressão — mas também é responsabilidade. Quando a avenida se transforma em palco de viés político explícito, com interpretações que soam como promoção de figura pública e propaganda fora de contexto, o espetáculo deixa de ser celebração e passa a gerar desconforto.

Ainda mais grave foi a forma como o enredo foi interpretado por grande parte da população: como um ataque ou desvalorização a segmentos importantes da sociedade, entre eles evangélicos, católicos, empresários e o setor do agronegócio. Esses grupos representam milhões de brasileiros que trabalham, produzem, geram empregos, alimentam o país e sustentam valores de fé, família e responsabilidade social.

Quando uma escola de samba — que deveria representar o povo — parece ridicularizar ou desqualificar esses pilares da sociedade, o resultado é o afastamento do público e a perda de identificação popular. E sem o povo, o samba perde sua essência.

O erro da Acadêmicos de Niterói não foi apenas técnico. Foi um erro de sensibilidade. Foi esquecer que o Brasil é plural, diverso, trabalhador e profundamente ligado à fé e ao esforço diário de quem constrói o país de verdade.

A avenida não é palanque. O samba não deve ser instrumento de provocação ideológica. O Carnaval precisa emocionar, celebrar a cultura, contar histórias que unam — não que reforcem divisões ou alimentem disputas.

A estreia no Grupo Especial poderia ter sido um marco de orgulho. Mas acabou se tornando um alerta: quando a arte se distancia do respeito ao povo, o brilho se apaga — e a resposta vem, seja nas arquibancadas, seja nas notas dos jurados.

Que a lição fique: o samba nasce do povo, vive pelo povo e só faz sentido quando respeita o povo em toda a sua diversidade, fé, trabalho e dignidade.
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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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