Somos todos Eduarda Rocha

Há cidades que se explicam pelos seus prédios, outras pelas suas ruas. Ipameri, no entanto, sempre se explicou pelo chão que pisa. Pelas calçadas ocupadas, pelas cadeiras arrastadas ao cair da tarde, pelas mesas que nunca foram apenas mesas, mas pontos de encontro, de conversa, de pertencimento.
A Praça do Rosário é testemunha viva disso. Não é exagero chamá-la de guardiã da memória afetiva da cidade. Ali, o tempo passou entre risadas, cafés demorados, jantares improvisados e aquela sensação única de ver a vida acontecer enquanto se está sentado ao ar livre. Chaplin, Di Angela, Pizzaria Elite, Bar do Paquinha, Kantin Bar. Nomes que não ficaram marcados só pelo que serviam, mas pelo direito natural de ocupar a calçada, como sempre foi em Ipameri.

Naquele tempo — e não faz tanto tempo assim — a calçada não era um problema urbano. Era o quintal coletivo. Um espaço de convivência que integrava comércio, moradores e visitantes de forma orgânica, sem discursos inflamados, sem denúncias seletivas, sem a tentativa de transformar tradição em infração.
Por isso, soa estranho, quase amargo, perceber que algo tão enraizado na cultura local passou, de repente, a ser tratado como afronta à ordem pública.

O uso consciente da calçada, a organização do fluxo com cones, a preocupação com a segurança de quem frequenta o local passaram a ser questionados como se fossem exceção — quando, na prática, fazem parte da paisagem urbana em farmácias, supermercados e tantos outros estabelecimentos espalhados pela cidade.

O que causa desconforto não é a fiscalização em si. Ordem é necessária. Regras existem para todos. O que incomoda é o critério desigual, o olhar rigoroso que parece se voltar justamente para onde a cidade voltou a pulsar. Onde há movimento, convivência, economia girando e sensação de segurança, surge a desconfiança. Como se a cidade viva incomodasse mais do que a cidade vazia.

Ipameri sempre foi assim. Cidade de praças que viram jantinhas, de domingos com massas vendidas nas ruas, de comércio que respira o ar livre. Isso nunca fez mal à cidade. Pelo contrário: fortaleceu laços, gerou renda, ocupou espaços e deu vida a áreas que, sem isso, estariam entregues ao abandono.

Transformar um costume consolidado desde a década de 1980 em “problema” revela mais sobre quem denuncia do que sobre quem trabalha. Revela um distanciamento da história local, da realidade de quem vive e empreende aqui, e da própria essência do que é Ipameri.

A Eduarda Rocha não está inventando nada. Está, na verdade, resgatando. Mantendo viva uma tradição que sempre existiu, mas que muitos parecem ter esquecido. E talvez seja exatamente isso que incomode: o fato de a cidade estar voltando a ser cidade. De a Praça do Rosário voltar a ser palco de encontros, e não apenas um espaço de passagem.

A história de Ipameri foi escrita nas calçadas, entre um gole e outro de amizade, entre uma conversa e outra sem pressa. Tentar apagar esse traço da nossa identidade é negar quem somos.

Por isso, este não é apenas um texto sobre um estabelecimento. É um posicionamento sobre memória, identidade e justiça urbana. É sobre defender o direito de a cidade viver sua própria história.

Porque, no fundo, quando se tenta silenciar a calçada, tenta-se silenciar a própria cidade.
E nisso, não há dúvida:

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Alan Ribeiro
Editor do Blog do Alan Ribeiro

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