
Humberto Gebrim
O Estado moderno se expandiu tanto que, em nome de segurança, ordem ou eficiência, passou a vigiar o cidadão de forma contínua. Fiscaliza, regula, monitora — invade sigilos bancário e fiscal, observa cada movimento, cada decisão, como se a vida individual precisasse ser submetida ao crivo da administração pública.
Não é apenas uma questão de arrecadar mais ou gastar melhor — embora esses problemas existam. É, acima de tudo, uma questão de liberdade. O poder estatal concentrado, que se sente no direito de controlar tudo, termina transformando o cidadão em objeto de vigilância. A dissidência se torna ameaça. Quem pensa diferente, sugere soluções alternativas, critica decisões, passa a ser alvo de atenção especial. É nesse ponto que a regulação deixa de ser governança e se torna instrumento de controle social.
A história mostra, de maneira incontestável, que esse padrão não é novidade, nem exclusivo de um lado político. Na Alemanha nazista, o regime fez da vigilância interna uma peça central: arquivos, listas de cidadãos, monitoramento cotidiano — tudo usado para intimidar, perseguir e silenciar. Na União Soviética, cada detalhe da vida civil se transformava em ferramenta de poder e punição.
Na América Latina, nas décadas de 1970 e 1980, regimes militares aplicaram métodos semelhantes: controle de informações, monitoramento de movimentos sociais, repressão a opositores. Não importa o país, o momento ou a ideologia: quando o Estado se acha no direito de fiscalizar o cidadão além do necessário, cria um poder que pode ser usado contra quem questiona, sem distinção de lado político.
Hoje, essa lógica persiste. Cuba, Venezuela e Bolívia mostram que o monitoramento e a intervenção do Estado na vida privada não desapareceram — apenas se transformaram. Empresas estatizadas, controle sobre comunicações, censura, pressão sobre opositores, manipulação de dados: tudo isso constrói uma sociedade em que a liberdade de expressão, o pensamento crítico e a autonomia individual estão permanentemente ameaçados. Relatórios de organismos internacionais têm apontado repetidamente para essas práticas, reforçando que não se trata de exagero ou paranoia, mas de tendência concreta.
E aqui em casa, o alerta é ainda mais imediato. A fiscalização de compras por aproximação, o monitoramento de Pix acima de cinco mil reais — se confirmados — são sinais claros de como o Estado pode transformar instrumentos de segurança ou prevenção em vigilância constante. Cada transação, cada gesto de consumo, cada passo financeiro, vira dado de controle.
E isso precisa ser combatido antes que se transforme em norma aceita.
Mesmo setores econômicos estratégicos já sentiram na pele o impacto dessa lógica: empresas estatizadas, interferência direta em decisões de mercado, ações que se sobrepõem a direitos e regras de funcionamento. Quando o Estado concentra tanto poder, ele não apenas regula — ele molda comportamentos, impõe submissão, intimida quem ousa discordar.
O padrão é claro: regulação excessiva gera vigilância, e vigilância gera pressão, manipulação e submissão. O que se justifica como governança eficiente se transforma em instrumento de intimidação. O cidadão passa a viver em alerta constante, medindo palavras, gestos e pensamentos.
O problema não é arrecadação, nem regras ou leis em si. O problema é a perda de limites. O poder estatal deve servir ao cidadão, e não o contrário. Liberdade não é detalhe, luxo ou consequência eventual. Liberdade é a base de qualquer sociedade civilizada.
Questionar o Estado não é questão de partido ou ideologia. É defender a própria democracia. É proteger o direito de pensar, criticar e discordar sem medo. Sem esses limites, repetiremos padrões históricos que, no passado, levaram sociedades inteiras a perder liberdade, dignidade e controle sobre suas próprias vidas.
Cada medida de controle deve ser examinada com rigor. Cada lei, cada fiscalização, cada registro: nada pode ser neutro quando toca na vida do cidadão. Porque, uma vez aberta a porta da vigilância contínua, a liberdade passa a ser o preço invisível que todos pagamos.


