O que a doutrina Monroe dos EUA significa a prática para o Brasil e outras nações da América latina

O Brasil em uma encruzilhada geopolítica em um hemisfério governado pelo poder

Josimar Salum

No início de 2026, a América Latina foi sacudida por relatos de que os Estados Unidos teriam tomado ações diretas contra a liderança venezuelana, incluindo alegações de que Nicolás Maduro teria sido detido e transferido para custódia norte-americana. O episódio carregou um significado geopolítico imediato. Ele sinalizou — de forma contundente — que, quando Washington entende que determinadas linhas vermelhas estratégicas foram ultrapassadas, está disposta a agir de maneira decisiva e unilateral.

Esse momento importa menos pelos seus detalhes legais e mais pela mensagem transmitida ao hemisfério. Ele tornou visível como a Doutrina Monroe se manifesta na prática hoje, por meio da imposição. Contudo, a maioria das autoridades brasileiras não tem prestado atenção ao que isso significa e a como esse fato se relaciona com as relações exteriores entre Brasil e Estados Unidos. O episódio redefiniu o contexto regional no qual o Brasil passa a operar e expôs os riscos de tratar a geopolítica como algo secundário em relação às disputas internas.

No mundo contemporâneo, a Doutrina Monroe já não existe como uma declaração formal, mas permanece plenamente operacional. Ela funciona como uma regra não escrita que molda a forma como os Estados Unidos reagem a desenvolvimentos políticos, militares e estratégicos no Brasil e na América Latina. O princípio central permanece inalterado: as Américas são tratadas como uma esfera de segurança dos EUA. O que mudou foi o método — pressão discreta em vez de doutrina explícita.

Em vez de advertências públicas, a aplicação ocorre hoje por meio de pressão econômica, diplomacia, sanções, alavancagem comercial, sistemas financeiros, cooperação de inteligência e influência narrativa. A doutrina opera como um reflexo geopolítico, acionado de forma seletiva e compreendido claramente pelos governos da região — mesmo quando não é reconhecido publicamente.

O Brasil vive um momento de profunda tensão institucional. O debate público está amplamente consumido por disputas internas — eleições, censura, decisões judiciais, polarização — enquanto uma realidade geopolítica mais ampla se desenrola quase sem ser percebida. Esse ponto cego é perigoso, não apenas por questões ideológicas, mas porque a geopolítica não espera por consensos internos.

No centro dessa tensão está o Supremo Tribunal Federal (STF), cada vez mais percebido por uma parcela significativa da sociedade como um ator político, e não apenas como um árbitro constitucional, ao lado de um governo federal alinhado à esquerda sob Luiz Inácio Lula da Silva. Juntos, operam dentro de um hemisfério ainda moldado — de forma silenciosa, porém decisiva — pela lógica da Doutrina Monroe.

No Brasil, a doutrina é aplicada de forma sutil. O país é livre para manter amplas relações econômicas, inclusive um comércio profundo com a China, mas limites estratégicos são claramente sinalizados. Quando a cooperação ultrapassa o comércio e avança para áreas como defesa, inteligência, infraestrutura crítica, telecomunicações, portos ou energia, a preocupação dos EUA aumenta. A expectativa não é submissão, mas neutralidade estratégica. O Brasil é tolerado como potência regional desde que não facilite a consolidação de uma presença geopolítica de longo prazo de potências rivais.

Na Venezuela, em contraste, a doutrina se manifestou em sua forma mais dura. Anos de alinhamento com Rússia, China e Irã, combinados com acusações envolvendo segurança e crime transnacional, levaram a sanções, isolamento e — segundo relatos recentes — ações diretas. A mensagem subjacente é explícita: a presença militar ou estratégica de potências rivais no hemisfério é inaceitável.

O México ilustra uma aplicação diferente. Ali, a doutrina opera principalmente por meio da integração econômica, e não do confronto. Dependência comercial, políticas de fronteira, cooperação em segurança e cadeias produtivas vinculam o México estreitamente aos interesses dos EUA. A integração funciona como um mecanismo de controle, tornando o alinhamento geopolítico independente ao mesmo tempo custoso e impraticável.

Na América Latina de forma mais ampla, o padrão é consistente. O comércio com múltiplas potências globais e a diversidade diplomática são, em geral, permitidos. Bases militares estrangeiras, alianças de inteligência com rivais dos EUA e a transferência de infraestrutura estratégica são desencorajadas. A desobediência estratégica tende a ser penalizada por meio de sanções, isolamento ou pressão financeira. Nesse sentido, a Doutrina Monroe não elimina a soberania em teoria; ela condiciona a soberania na prática.

O Brasil também entrou em uma fase de política judicializada. O STF tem ampliado progressivamente seu alcance para áreas tradicionalmente reservadas aos poderes eleitos, incluindo eleições, regulação da mídia, investigações criminais, atividade parlamentar e discricionariedade do Executivo. Essa expansão reflete interpretações constitucionais amplas, incentivos institucionais favoráveis à intervenção e uma homogeneidade ideológica entre ministros nomeados nas últimas duas décadas.

O resultado é uma Corte que cada vez mais governa resultados, e não apenas interpreta a lei. Por si só, isso já representa um desafio democrático. Em uma ordem global em transformação — tornada mais clara pela recente aplicação hemisférica — isso se converte em uma vulnerabilidade estratégica.

O Foro de São Paulo é frequentemente citado como pano de fundo ideológico para a coordenação da esquerda na região. A precisão é necessária: não há evidências verificáveis de que o STF siga diretrizes desse foro. Contudo, o comando direto não é necessário para produzir convergência. Ideologias compartilhadas, narrativas sobrepostas e objetivos de política semelhantes podem gerar resultados alinhados entre instituições — especialmente quando essas instituições concentram poder desproporcional. O problema não é conspiração; é alinhamento estrutural sem responsabilização.

Dessa convergência decorre um erro crítico de cálculo: a crença de que o controle institucional interno isola o Brasil de consequências externas. Os eventos recentes no hemisfério sugerem o contrário. Sob a lógica da Doutrina Monroe, o que importa não é a soberania formal, mas o alinhamento estratégico. A pressão é aplicada de forma incremental por meio de mercados, regimes de conformidade, diplomacia, narrativas e cooperação jurídica. Tribunais e eleições não são imunes.

O Brasil não é a Venezuela. Seu tamanho, complexidade e integração econômica lhe conferem margem de tolerância — mas essa tolerância é condicional. Laços econômicos profundos com a China são amplamente aceitos. O que não é aceito é o alinhamento militar estratégico com potências rivais, a transferência de controle de infraestrutura crítica ou a cooperação em inteligência e defesa que altere o equilíbrio hemisférico. Quando esses riscos coincidem com a centralização do poder judicial, restrições à oposição e percepções de censura, a margem de tolerância se estreita.

De uma perspectiva externa, a questão decisiva não é se as decisões do STF são juridicamente justificáveis à luz do direito brasileiro, mas o que elas sinalizam. Um Judiciário percebido como politicamente alinhado, hostil à dissidência ou disposto a contornar o devido processo acende alertas em sistemas que valorizam previsibilidade e pluralismo. Quando um tribunal se torna o principal motor político, a fragilidade aumenta — e sistemas frágeis atraem pressão.

Se o atual ponto cego persistir, as consequências tendem a se desdobrar gradualmente: pressão econômica por meio de redução da tolerância a investimentos e fricções financeiras; isolamento institucional por meio de questionamentos à credibilidade e à cooperação; e uma mudança narrativa que passe a enquadrar o Brasil como instável ou arriscado. Nada disso exige mudança de regime — apenas desalinhamento estratégico sustentado ao longo do tempo.

O maior perigo para o Brasil hoje não é a divergência ideológica; é a cegueira estratégica. A geopolítica não debate nem avisa. Ela responde. O choque recente envolvendo a Venezuela tornou visível aquilo que muitos preferiram ignorar. O STF não precisa “seguir” fórum algum para que o Brasil enfrente consequências. Basta funcionar como um instrumento político dentro de uma ordem global em mutação. Em um hemisfério ainda governado por realidades de poder mais antigas do que qualquer governo atual, instituições que ignoram a geopolítica acabam colidindo com ela — e a geopolítica jamais negocia legitimidade depois do fato.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

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