
A trajetória da Venezuela sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro é uma das experiências mais marcantes da política latino-americana recente, não apenas pelo colapso social e econômico que produziu, mas porque revela, com clareza incômoda, o que acontece quando a promessa de justiça social se converte em projeto de poder e as instituições deixam de conter o governo para gradualmente servi-lo.
No caso venezuelano, a deterioração não teve origem na falta de mercado internacional ou no isolamento comercial; países como China e Estados Unidos continuaram como compradores relevantes do petróleo venezuelano.
O problema foi interno: faltaram gestão, planejamento e investimento na indústria petrolífera estatal. A PDVSA perdeu capacidade técnica, sofreu com decisões politizadas e deixou de produzir aquilo que o mundo estava disposto a comprar. Assim, uma das maiores reservas de petróleo do planeta transformou-se em fragilidade econômica, corroendo a base fiscal que sustentava as políticas sociais.
A partir daí, o país entrou em um ciclo progressivo de deterioração. Serviços essenciais entraram em colapso, a saúde pública passou a conviver com escassez de medicamentos, o saneamento e o transporte foram degradados, a hiperinflação corroeu a renda das famílias e milhões de venezuelanos deixaram o país em busca de sobrevivência.
Esse quadro não pode ser explicado apenas pela crise produtiva; ele se relaciona diretamente com o processo de concentração de poder político, enfraquecimento do pluralismo, pressões sobre a imprensa e redução da autonomia entre as instituições.
A democracia venezuelana não caiu de maneira abrupta, mas foi sendo erodida por decisões sucessivas que naturalizaram a supremacia do poder central e diminuíram os mecanismos de controle e responsabilidade pública.
É nesse ponto que a experiência venezuelana se torna especialmente relevante para o debate institucional no Brasil. Democracias não se preservam apenas pela existência de eleições, mas pela manutenção de freios e contrapesos, de limites claros ao exercício do poder e de transparência sobre as decisões de Estado.
Nesse contexto, cresce a preocupação com a centralização progressiva de competências no Supremo Tribunal Federal, com decisões que ampliam o raio de atuação da Corte e concentram influência política e jurídica em níveis que desafiam o equilíbrio tradicional entre os poderes. Não se discute a importância do STF na proteção de direitos e garantias constitucionais; o alerta está no risco de que decisões pouco delimitadas, insuficientemente justificadas ou de difícil escrutínio público produzam desconfiança social e fragilizem a percepção de equilíbrio institucional.
A experiência venezuelana mostra que a erosão democrática começa quando o poder deixa de ser questionado, quando a crítica passa a ser deslegitimada e quando a sociedade perde clareza sobre quem decide e com base em quais fundamentos.
O Brasil e a Venezuela têm histórias, instituições e contextos distintos, mas os mecanismos de deterioração institucional são universais o suficiente para justificar reflexão. Concentração de poder, seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário, pode parecer funcional no curto prazo, mas cobra um preço alto no futuro.
A lição é direta: políticas sociais e projetos de país somente se sustentam quando convivem com pluralismo político, transparência institucional, responsabilidade pública e limites firmes ao exercício do poder.
Quando esses pilares são enfraquecidos, o colapso não se instala de imediato; ele se acumula silenciosamente, até se tornar irreversível.
A história recente da Venezuela não é um espelho automático do Brasil, mas é um aviso. Preservar instituições não significa proteger governos ou grupos políticos — significa proteger a própria sociedade. E ignorar esse alerta, como mostra a experiência venezuelana, pode custar o futuro de um país.


