Gilmar e o cachorrismo moriano

Demóstenes Torres

Uma vítima da vaidade agoniza em praça pública. Não, não deu no New York Times nem está na capa da Veja, mas o vexame é comentado das carroças de sanduíche na Praça dos 3 Poderes aos barcos que atravessam de Belém à Ilha do Marajó. No Sul, o assunto deve estar quente igual a chimarrão. Nas mídias sociais, então… Há tempos não se via cachorrismo do nível da tentativa do senador Sergio Moro para continuar sendo senador, porque Sergio Moro deixou de ser à primeira ilegalidade cometida na Operação Lava Jato. E foram muitas.

Falar de malandro do mal remete a um do bem. Moreira da Silva, em composição sua e de Ribeiro Cunha, canta em “Na subida do morro” como o ex-juiz deseja que o ministro Gilmar Mendes acredite:

“Você mesmo sabe
Que eu já fui um malandro malvado
Somente estou regenerado
Cheio de malícia
Dei trabalho à polícia

Pra cachorro”.

Moro está com as quatro patas no abismo e a nação é que fica abismada com suas estratégias para escapar do fim do poço, onde o espera Deltan Dallagnol, o ex-procurador da República e ex-deputado que a Vaza Jato provou ser execrável. “Malandro é malandro e mané é mané”, escreveu o filósofo Neguinho da Beija-Flor para o sucesso na voz de Bezerra da Silva. E aí não é mané no sentido de Garrincha, mas na falta de sentido de Deltan, que atirou-se no destino de Moro e levou junto seus pupilos.

Gilmar Mendes e seus colegas do Supremo Tribunal Federal devem manter distância higiênica dessa dupla. Após eventual audiência por dever de ofício, conferir se a carteira continua no bolso da toga ⎯ se a turma desses malucos produziu um que foi armado a sessão do STF, não custa nada evitar crimes presenciais.

Lamber sapato de autoridade não regenera o infrator, apenas reaviva na memória que a língua é a mesma produtora de mentiras sobre a vítima que agora o algoz planeja seduzir como se integrasse um bando de pirralhos do Ministério Público Federal do Paraná. Supõe-se que, diante do ministro, a mula-sem-cabeça (quer dizer, sem cérebro, pois sobre a garganta ainda repousa a caixa craniana) surja com vocabulário diferente do revelado no áudio da Vaza Jato.

Nem imagino as palavras do detrator tentando convencer aquele a quem agrediu de que malandro malvado se ressocializa. Então, me valho de um pensador moderno, Nelson Sargento, no “Idioma esquisito”. Diante de Gilmar, Moro foi: “Estrambonático, palipopético/ Cibalenítico, estapafúrdico/ Protopológico, antropofágico/ Presolopépipo, atroverático//  Batunitétrico, pratofinândolo/ Calotolético, carambolâmbolu/ Posolométrico, pratofilônica/ Protopolágico, canecalônico”.

O ex-juiz apela para o beija-mão por sentir  na nuca da carreira o beijo da indesejada das gentes. Consegue a proeza de unir PT e PL na construção do cadafalso. A ele, arrastou Deltan e ficou da plateia torcendo para a corda não se partir. Os dois pareciam viver o casamento perfeito até entrar em cena o “salve-me quem puder” ou “voto pouco, meu mandato primeiro”. Entra em cena mais um gênio da música, Jackson do Pandeiro, em “A mulher que virou homem”:

“Meu pai me disse: meu filho tá muito cedo
Eu tenho medo que você case tão moço
Eu me casei, veja o resultado
Tô atolado até o pescoço”.

O conselho do pai do músico teria servido para Deltan como as suas demonstrações de servilismo não estão sendo úteis para Moro no triste papel de bajulador. Dias atrás, Moro incentivava o linchamento moral do ministro Gilmar, que foi quase agredido fisicamente por ser contrário às loucuras inconstitucionais da Lava Jato. Não era xingamento espontâneo de eventual patuleia contrariada. Havia maestros orquestrando, Moro e Dallagnol. Desafinados, almejam se manter no jogo. Aos 18 minutos do 2º tempo da prorrogação, expelem conversa de bêbado para delegado com a compostura de delegado bêbado, pois se veem na marca do pênalti.

Ainda danifica o ouvido a voz de pato rouco dando ordens a procuradores da República para que estraçalhassem a honradez e a liberdade de cidadãos, arrebentassem as maiores empregadoras do Brasil, prendessem ao arrepio das leis. O mesmo ruído, num idioma semelhante ao Português, só que pornográfico e analfabeto, ejetava comentários horríveis a destemidos que não se curvavam ao mando do então juiz. Transcrever essas frases é prejudicial à saúde pública, então, retornemos à subida do morro definindo a situação do que está descendo a ladeira e cantemos com Kid Morangueira e Gilmar Mendes após sua audiência com Moro:

“Vocês não se afobem
Que o homem dessa vez
Não vai morrer
Se ele voltar dou pra valer”.

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Alan Ribeiro
Alan Ribeiro

Alan inicia seus trabalhos com o único objetivo, trazer a todos informação de qualidade, com opinião de pessoas da mais alta competência em suas áreas de atuação.

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