
Ronaldo Caiado assume Governo de Goiás depois de 24 anos da primeira tentativa. Une carisma, ficha limpa e determinação em fazer diferente do ciclo que se encerra sob a suspeita da corrupção. Herda um estado em colapso, com a classificação mais baixa do Tesouro Nacional
Welliton Carlos
O governador eleito Ronaldo Caiado (DEM) e o vice-governador Lincoln Tejota (Pros) assumem na manhã desta terça-feira, 1°, em uma solenidade amplamente festejada por correligionários e apoiadores na Assembleia Legislativa, seus cargos junto ao Governo de Goiás com a missão de retribuírem a confiança concedida pelo eleitorado goiano.
A dupla não é exatamente antagonista do grupo que sai, já que tanto Caiado quanto Tejota integram facções que fizeram oposição ao MDB nas décadas de 1980 e 1990 e apoiaram o projeto tucano a maior parte do tempo que o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) esteve no poder. Contudo, Caiado tem a obrigação de atender ao teor oposicionista que marcou todo o período eleitoral.
A disputa começou com seu amplo favoritismo e forte discurso crítico aos vários casos de suspeita de corrupção apurados pelos órgãos de investigação. Denúncias de que o crime organizado teria tomado o Estado de Goiás foram a base da campanha de Caiado. Para coroar seu discurso, durante a disputa eleitoral, uma operação da Polícia Federal prendeu Jayme Rincon, crítico de Caiado e responsável pelo caixa de campanha do PSDB. Dias depois, foi a vez de Marconi Perillo ser detido pela PF.
O novo governador assume 24 anos após tentar pela primeira vez chegar ao Palácio das Esmeraldas. Em 1994, Caiado ficou em terceiro lugar, em uma disputa que teve Maguito Vilela (PMDB) vitorioso e a senadora Lúcia Vânia (PP) como segunda colocada.
Caiado nasceu em 25 de setembro de 1949 em uma família tradicional de produtores rurais e que sempre esteve à frente dos principais grupos políticos do estado. O último a governar Goiás foi Leonino di Ramos Caiado (1933), em meados da década de 1970, escolhido durante a ditadura e com passagem discreta na gestão pública.
O novo governador obteve 1.773.185 votos contra 479.180 obtidos por Daniel Vilela (MDB). Caiado conquistou uma das mais amplas vitórias das eleições no país, sendo definida ainda no primeiro turno, em 7 de outubro.
O candidato tucano, José Eliton, na reta final cedeu o segundo lugar que ocupava nas pesquisas para um novato em campanhas majoritárias e encerrou o ciclo oficial da primeira era do marconismo. A derrota do grupo dos tucanos dissolveu completamente a possibilidade inicial de oposição ao novo governo, que começa sem um discurso político antagonista.
FORÇA
Durante a campanha eleitoral, Caiado enfrentou grupos da imprensa ligados ao PSDB que se nutriam de vantajosas verbas públicas e uma forte oposição de prefeitos e políticos articulados com o candidato da situação por conta de um programa batizado de “Goiás na Frente” – caso de integrantes das associações representativas dos municípios. Enquanto José Eliton procurou desqualificá-lo por não ter experiência de gestão, Daniel Vilela apontou que Caiado seria um impostor na oposição, já que fez parte do grupo de Marconi até 2014.
Nada foi capaz de deter Caiado, que apresentou ficha limpa, conduta irretocável em décadas de atuação pública e inabalável disposição em enfrentar uma agenda política montada pelo grupo que perdeu a eleição.
O apoio popular-carismático foi semelhante ao concedido para o capitão Jair Bolsonaro (PSL), que venceu as eleições presidenciais com grande apoio popular. Menos apaixonado, o eleitorado de Caiado foi, contudo, muito mais expressivo nas urnas, o que comprova a tese de que o “povo”, de fato, ao lado de Caiado, venceu as eleições contra um modelo de gestão que se estagnou ao longo do tempo e se degenerou através de indícios de corrupção.
Após a vitória, o governador foi rápido na elaboração de uma equipe de transição cuja missão é diagnosticar os números financeiros e técnicos do Estado. A equipe identificou aumento da dívida pública com a União, falta de pagamentos dos serviços das dívidas, ausência de repasses de recursos para Organizações Sociais (OSs) que atendem o segmento de saúde e colapso de serviços públicos.
A Secretaria do Tesouro Nacional, do Ministério da Fazenda, classifica Goiás com a letra D, em completa situação de inadimplência e salários de servidores atrasados.
CENÁRIO
O senador encontra a partir de janeiro um Estado com grande endividamento e dificuldades orçamentárias históricas. A equipe de transição foi capitaneada pelo senador Wilder Morais (DEM) e Instituto Comunitas, que veio de São Paulo para diagnosticar as contas de Goiás.
Nos meses que antecederam sua posse, o senador teve tempo para buscar apoios na equipe do presidente Bolsonaro, negociar com grandes empresários redução momentânea de bilionários benefícios fiscais, participar de um curso de experiências em gestão de curtíssima duração em Londres e ainda lançou um livro com seus artigos publicados a partir da atuação no Senado.
Dos governadores eleitos, foi o que mais demorou em formar e anunciar sua equipe. Alegou que buscava o perfil ideal para ocupar cada uma das secretarias: “Nunca tivemos uma transição no Estado de Goiás, temos hoje uma estrutura de 20 anos, e para mexer nesta estrutura é necessário aprofundar cada vez mais, obter dados. Estamos estudando, reunindo, levantando dados para poder saber a realidade do Estado. Vamos usar o máximo do tempo que tempos para checar dados, obter informações e debater propostas que sejam viáveis para o Estado”.
Apesar de enfrentar críticas nas redes sociais, principalmente por trazer uma parcela de gestores fora dos quadros de Goiás, desconhecidos dos contribuintes goianos, seu escolhidos apresentam em sua maioria perfil técnico e sem denúncias ou envolvimentos em escândalos.
Sobre o aproveitamento do que deu certo nas gestões de Marconi Perillo, Caiado reitera que tudo dependerá de seus auxiliares e de um livre convencimento, já que chega ao poder sem rancor ou qualquer birra com os ex-gestores. Ao DM e ao Blog disse que vai estudar cada caso: “Eu estudo, ouço, busco a melhor assessoria em cada tema, e não tenho nenhuma pretensão de posar de dono da verdade, ou me sentir agredido porque as pessoas defendem outra tese. Eu penso que o debate, a argumentação aberta, discutindo os cenários e a metodologia, é que fazem o convencimento. Se uma tese deu certo, não tenho menor dificuldade em dar continuidade a ela, aprimorando cada vez mais”.
Roteiro da cerimônia posse do governador Ronaldo Caiado
– Cerimônia de posse na Assembleia Legislativa
– Trajeto em carro fechado da Assembleia Legislativa até o Palácio das Esmeraldas
– Chegada ao Palácio das Esmeraldas acompanhado de sua esposa Gracinha Caiado e seus filhos, juntamente com o vice-governador Linconl Tejota, sua esposa Priscila Tejota e seus filhos.
– Honraria de Tropa em Revista em frente ao Palácio
– Passagem da faixa no púlpito principal
– Despedida do ex-governador José Eliton
– Execução dos hinos Nacional e de Goiás
– Discurso do Vice-governador Lincoln Tejota
– Discurso do Governador Ronaldo Caiado
– Encerramento da cerimônia
– Coletiva de imprensa do governador no Salão Gercina Borges
– Saída do governador para Brasília, onde participará da posse do Presidente eleito Jair Messias Bolsonaro.