GENTE QUE FAZ

Um jornalismo humanizado

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Reproduzimos abaixo uma matéria originalmente publicada no jornal Diário da Manhã. 

Ao DM, José Hamilton Ribeiro fala sobre a reportagem na era digital e comenta sua experiência cobrindo a Guerra do Vietnã Jornalista é reverenciado como um dos maiores repórteres da história da imprensa brasileira

FOTO: REPRODUÇÃO
Marcus Vinícius Beck

José Hamilton Ribeiro, 84, é um repórter à moda antiga. E um dos maiores nomes da história do jornalismo brasileiro, sem exageros: Ribeiro fez parte da revista Realidade, escreveu reportagens saborosas e virou uma espécie de papa do Jornalismo Literário no País. Autor do
celebrado livro-reportagem “O Gosto da Guerra”, lançado em 1969 e destrinchado nas faculdades de jornalismo como um exemplo primoroso de narrativa literária, ele prefere a entrevista cara a cara, olho no olho, do que as aspas preguiçosas obtidas via telefone.

Nascido no dia 29 de agosto de 1935, Zé Hamilton (como o jornalista é chamado pelos mais próximos) lançou 16 livros, mas dois marcaram sua carreira: “O Gosto da Guerra” e “Música Caipira – As 270 Maiores Modas”. “O livro do Vietnã é uma narração em primeira pessoa e a história foi contada com muita naturalidade”, diz o jornalista ao Diário da Manhã. De acordo com Ribeiro, o fato de a obra ter se tornada obrigatória para estudantes e profissionais tarimbados é que ela foi escrita “no calor do acontecimento e com o sangue quente”.
Faz 52 anos, a ser completado no próximo dia 20, que Ribeiro ouviu uma explosão de proporções inimagináveis, olhou para o soldado americano Henry e viu no rosto dele uma expressão de horror. O repórter pisara em uma mina quando cobria a Guerra do Vietnã (1954-1975). “Ele apareceu na minha frente de repente, com o rosto transformado numa
máscara de horror”, diz Ribeiro na obra “O Gosto da Guerra”, que teve uma reedição em 2005 pela editora Objetiva. “ Senti na boca um gosto ruim”.
Ribeiro participava de uma patrulha com tropas americanas, na Estrada sem Alegria em Quang Tri, norte do Vietnã, quando perdeu parte da perna esquerda. “Então senti um repuxão na perna esquerda e só aí tive consciência de que a coisa era comigo. A perna esquerda da
calça tinha desaparecido e eu estava, naquele lado, só de cueca”, narra o jornalista. Mesmo mutilado e com uma dor terrível, ele não perdeu o foco do cenário de carnificina ao seu redor.
Sua obra, além da irretocável credibilidade, é irônica e dramática.
A mistura desses sentimentos possibilitou ao leitor desenhar o ambiente, imaginar os diálogos e se colocar na situação que Ribeiro viveu no Vietnã. A poucos quilômetros do lugar em que estavam o repórter e o fotojornalista Kei Shimamoto, outros soldados do Exército executaram um massacre com mais de 500 pessoas da aldeia de My Lai, considerado o maior da história das Forças Armadas dos Estados Unidos. Os americanos mataram dezenas de civis vietnamitas, muitos deles mulheres, idosos e crianças que viviam numa área rural.
Kei Shimamoto, que conseguiu o retrato de Ribeiro ferido após pisar na mina, morreu pouco tempo depois quando o helicóptero em que estava explodiu, alvo de um foguete. Com a consciência pesada e sentindo-se culpado, Shimamoto ficou no hospital com o jornalista, que precisou passou por uma cirurgia. Do Vietnã, o repórter foi para os Estados Unidos.
Shimamoto vinha ao Brasil para trabalhar na Realidade, mas não deu tempo: o fotojornalista foi vítima dos horrores da guerra.

Imprensa em crise

Redações enxutas, profissionais com pouco tempo para pesquisar e diversas tarefas a cumprir. É esse o cenário encontrado nos grandes e pequenos jornais do Brasil. “A imprensa brasileira está em crise não é porque não há repórter bom, é porque não há estrutura
necessária oferecida pelas empresas jornalísticas para que o repórter possa pesquisar e se aprofundar no tema”, afirma o jornalista José Hamilton Ribeiro, que estará em Goiânia neste sábado (7) ministrando a palestra “Tendências e Oportunidades Para a Comunicação”, na Faeg.
Zé Hamilton ganhou sete prêmios Essos e o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia (EUA), considerado um dos mais importantes do mundo. Atualmente, o jornalista é repórter especial da TV Globo. “Nossa imprensa está vivendo uma crise”, afirma o experiente repórter. Com seis décadas e meia de profissão, Ribeiro é taxativo: “nunca vi uma coisa dessas. Parece que a imprensa vai acabar e aqui temos um presidente maluco”, analisa, referindo-se ao presidente Jair Bolsonaro e os constantes ataques que ele faz à imprensa.
Embora tenha conseguido visibilidade com o livro-reportagem “O Gosto da Guerra”, Zé Hamilton também é autor do livro “Música Caipira – As 270 Maiores Modas”, uma pesquisa de fôlego que desconstrói preconceitos e mostra como a música caipira está ligada à gênese da nossa nação. “Uma boa reportagem é uma história. No jornalismo diário, é difícil. Mas no jornalismo de revista há mais tempo para o repórter se aprofundar no tema do qual ele irá escrever”, declara.
Jornalista tarimbado com passagens por grandes redações de jornal impresso, revista e televisão, Ribeiro tem muita história para contar, e é um daqueles repórteres que elevam o jornalismo – como diz Gay Talese, expoente do Novo Jornalismo americano – ao status de arte. Ribeiro é um mestre da reportagem. Suas histórias humanizadas, com fluidez textual e senso de humanismo são uma verdadeira aula em tempos de crise na imprensa. Nunca foi tão necessário lermos, reverenciarmos e aprendermos com José Hamilton Ribeiro.

O blog agradece ao Jornalista Marcus Vinicius por ceder a publicação de tão importante matéria. 

Allan Ribeiro

Minha história com o jornalismo tem uma trajetória que começou a ser escrita aos 11 anos de idade, quando comecei a representar o jornal O Diário da Manhã.
O fiz por gostar de ler e de estar informado. De entregar o jornal passei a enviar notícias da cidade a serem publicadas.
Ao visitar o jornal, em conversar com o senhor Batista Custódio, surgiu a possibilidade de publicar artigos sobre temas específicos. Foi o que fiz, e ver a repercussão só me incentivou.
Deste ponto passei a publicar também no O Popular. Como a volta do Novo Horizonte ao futebol profissional integrei a equipe da Rádio Xavantes, graças a Deus, naquela oportunidade o time subiu para a divisão de elite.

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