Opinião

Mas afinal, quem era Sabrina de Campos?

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Responder quem era Sabrina de Campos (Sabrina Bittencourt ou Sabrina Petit) é um trabalho difícil. Sabrina era um fantasma, não estava em lugar nenhum, mas também estava em todos os lugares ao mesmo tempo. Recentemente ela supostamente se suicidou ao ser confrontada por suas acusações de que o líder religioso João de Deus liderava uma rede de tráfico de crianças no norte de Minas Gerais. Mas afinal, Quem era Sabrina de Campos?

O que podemos afirmar é que sua vida foi intensa. Permeada de situações bizarras e inusitadas.
Sabrina nasceu em 24/12/1981 e viveu grande parte de sua juventude em Recife-PE. Foi criada em uma família integrante da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, conhecida como Mórmon, com rígida disciplina religiosa. Lá ela relata que foi abusada dos 4 aos 8 anos de idade por um pediatra que frequentava o templo mórmon. Ele teria “examinado” suas partes íntimas sem o consentimento de seus pais.
Durante o tempo que frequentou essa comunidade religiosa relatou que sofreu diversas outras tentativas de estupro, além de “estupros mentais” que teriam sido cometidos por mais de 30 homens. Em 1996, aos 15 anos ela teria sofrido uma tentativa de estupro de seu melhor amigo da juventude mórmon e no mesmo ano um homem a teria acariciado enquanto dormia no ônibus também dos mórmons.
Traumatizada com esses acontecimentos ela decide sair de Recife e ir para São Paulo. Ela retorna em 1997, após 9 meses fora, mas já nos primeiros dias teria acontecido o inesperado. Sabrina relata que um homem armado com faca a obrigou a subir na garupa de sua moto e a estuprou num matagal em porto de galinhas. Isto à luz do dia, enquanto ela voltava para casa. Ela também relata que o homem dizia que possuía o vírus da AIDS enquanto a estuprava e em seguida disse que a levaria para a matar. Ela conta que pulou da moto em movimento e rolou pela estrada, saiu correndo e pulou na frente de uma van que a socorreu. Em seguida passou por 5 delegacias pois os delegados desconfiavam de seu relato. Diz que fez um retrato falado perfeito do estuprador e também foi capaz de memorizar a placa da moto, facilitando sua busca e apreensão em menos de 24 horas! Mas segundo ela o homem era um informante da polícia numa “operação importante” contra o tráfico, e por isso os policiais relutaram em prendê-lo. Relatou também que nos meses seguintes contraiu diversas DSTs e passou meses fazendo exames de HIV. Por fim, disse também que acabou engravidando do estuprador mas fez um aborto.
Em 2002, aos 21 anos, se casou pela primeira vez, ela conta que foi uma maneira de se libertar do seu passado mórmon. O casamento durou apenas 4 meses, mas anos de briga pela guarda de seu filho, Gabriel. Seu filho primogênito se tornou o carro-chefe das narrativas de Sabrina por conta de ser supostamente “superdotado”.

Dois anos depois passou a se envolver com o que se tornaria grande parte das atividades de Sabrina dali para frente. Nessa época ela desenvolveu com o professor Ismar de Oliveira Soares, o curso prático de comunicação e mobilização de recursos para organizações do terceiro setor na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. E essa função ela exercia com maestria. Sabrina conseguia convencer e aglutinar pessoas e projetos em torno de si. Quatro anos depois entraria de cabeça nesse universo. Segundo matéria da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, Sabrina já teria fundado mais de 18 ONGs em 3 anos.

Se casou em 2007 com o engenheiro de informática Rafael Velasco Megias, espanhol de 33 anos, no primeiro casamento ecologicamente responsável da história. Com direito a alianças de fio de coco, sandálias recicláveis, plantação de árvores no fim da cerimônia e cobertura da mídia. Um ano depois foi morar em Barcelona, Espanha, onde estaria participando de outras ONGs.

Como dito anteriormente, Sabrina acreditava que seu filho Gabriel era superdotado (apesar de nunca ter apresentado nenhuma prova disso), e criou seus filhos sem eles irem para a escola. Se tornou uma grande militante do “unschooling”, que embora se pareça com o “homeschooling” se difere, pois o segundo mantém uma certa rotina e regras, já o primeiro é todo voltado para as vontades das crianças. Ela tentou de toda maneira emplacar a carreira de “minichef” do filho. Obteve certo sucesso com o menino, tendo contato com o Chef Jamie Oliver, uma participação do menino em um TED onde ele falava sobre comidas saudáveis e uma entrevista para o programa “A liga” da Band que falava sobre crianças superdotadas. Na ocasião dessa entrevista ela teria contado que teve que fugir do hospital de onde estava internada, por um problema na válvula mitral do coração, e que os médicos queriam opera-la , mas que ela não quis . Que sem a cirurgia , ela.morreria. Disse que estaria preparando os seus filhos para a sua morte. Mas anos depois disse que se curou apenas com tratamentos naturais.

Sabrina se manteve em evidência por conta de outros supostos problemas de saúde. Em 2014 apareceu em uma matéria do Fantástico onde relata que esqueceu 11 anos de sua vida durante um almoço em família. O motivo da amnésia, segundo ela, foi o estresse. Sabrina cuidava de 37 startups, empreendimentos sociais e projetos de inovação, além de três filhos. Em 2015 ela relata que teve um câncer que também foi tratado com remédios naturais.

Sabrina teve uma vida nômade, como ela mesma relatou, e passou por vários países como: Brasil, Espanha, México, EUA, Suécia, Síria, Líbano e Portugal. Onde ministrava palestras sobre as suas experiências com ONGs e sua militância sobre unschooling. Chegou a dizer que trabalhou na NASA e que recebeu o título de Honoris Causa pela Cátedra da Unesco em Barcelona.
Com a sua separação de Rafael em 2016, Sabrina se envolveu ainda mais com causas humanitárias. Seu filho Gabriel, na época com 14 anos, foi morar sozinho e transitou entre vários países, às vezes trabalhando por comida. Segundo ele, a sua mãe estava “trabalhando em Barcelona pelas mulheres refugiadas da Síria que estão na Grécia, pelos cientistas da Turquia, as amigas dela que sofrem assédio no Brasil e no México. Mal consigo falar com ela.”
Em 2017 participou da exposição “tragam seus filhos para ver gente nua” onde ela era exibida nua em frente de crianças na performance “comer y ser comida”.

Sabrina já era famosa no Brasil e no mundo por conta dos seus grandes contatos numa rede de ONGs. É co-fundadora da COAME – Combate ao Abuso no Meio Espiritual, uma ONG que teria objetivo denunciar abusos feitos por pessoas no meio religioso. Em agosto de 2018 ajudou na denúncia de Prem Baba, um famoso guru. Em dezembro, Sabrina após receber uma denúncia de que o líder religioso espírita conhecido como João de Deus teria abusado de mulheres, conseguiu um entrevista no “Programa do Bial”, na rede Globo. Tês dias depois o Ministério Público de Goiás e São paulo criaram uma força-tarefa para para apurar as mais de 300 denúncias que estavam recebendo. Sabrina se juntou ao grupo Vítimas Unidas, comandado por Vania Lopes e Maria do Carmo Santos, e deu entrevistas para diversos jornais, mesmo estando fora do país, relatando estar recebendo ameaças de morte. Em 12 de dezembro Sabrina diz (sem nenhuma prova) que uma das vítimas de João de Deus tinha cometido suicídio pois se desesperou ao ver que o religioso havia ido trabalhar normalmente naquele dia. Isso foi o estopim para que o Ministério Público de goiás pedisse a prisão preventiva de João de Deus. Em 14 de dezembro foi decretada sua prisão preventiva pela justiça de goiás e após dois dias foragido, foi preso.

Mas Sabrina ainda não estava satisfeita. Ela acusava o médium de crimes como tráfico de influência, ameaças de morte, abuso, estupro, pedofilia e tráfico de pedras preciosas e semipreciosas. Em um vídeo publicado nas redes sociais ela dizia que João comandava uma rede internacional de tráfico de crianças: Durante 20 anos ele teria em fazendas em Abadiânia e norte de Minas onde mulheres, na sua maioria negras, eram escravizadas dos 14 aos 18 anos, depois eram mortas para que os bebês fossem vendidos para a Europa, EUA e Austrália. Sabrina também afirmou que estava sendo perseguida pelos “capangas” de João de Deus e por isso tinha que mudar frequentemente de país.
Sabendo dessas afirmações o Youtuber, Paulo Pavesi, militante contra o tráfico de órgãos e que vive como refugiado em Londres, publicou uma série de vídeos acusando Sabrina de dizer mentiras. Paulo pedia que ela mostrasse a prova da mortes e possíveis ossadas, já que ela falava de centenas de mortes. Sabrina não respondeu os questionamentos mas atacou Paulo. E é aí que eu, David Ágape, entro na história.
Sabrina fez uma postagem no dia 02/02 onde dizia que estava sendo perseguido por Pavesi e listou uma série de pessoas que a estavam pondo em situação de perigo, incluindo eu. Eu não tinha nenhuma ligação com o caso, muito menos estive investigando-o. É verdade, estive investigando para a Agência Dossiê, de qual sou fundador, outros casos como: a saída de Jean Wyllys do Brasil, as agressões de bolsonaristas durante as eleições e as supostas ligações de Flávio Bolsonaro com a milícia. Só que o caso de Sabrina eu sabia bem pouco e só tinha contato com o que era falado por Pavesi em suas redes sociais. Mas por conta disso tive que começar a pesquisar.

Recebi alguns relatos de pessoas que conheciam Sabrina de longa data e a descreviam como mitomaníaca, manipuladora e megalomaníaca. E que tinha um longo rastro de mentiras. Os diversos estupros que teria sofrido; as doenças estranhas, como o problema na válvula mitral do coração, o linfoma, a amnésia e as respectivas curas milagrosas; O seu trabalho na Nasa; o seu título de honoris causa oferecido pela Cátedra da Unesco; o filho super dotado;O chip com nanotecnologia implantado atrás da orelha e as centenas de campanhas que liderou; seriam todos mentiras inventadas por ela. Anos atrás um médico chegou a examina-la sobre a questão de sua amnésia e diagnosticou que ela tinha problemas psicológicos.

No último sábado, Sabrina Campos fez uma última postagem em seu facebook com uma carta de suicídio. Disse que estava sendo perseguida e não aguentava mais. Se comparou a Marielle Franco, vereadora assassinada por milicianos em 2018. Disse que nos últimos dias tinha organizado todas as provas que tinha dos crimes de João de Deus e seus filhos entregariam para a polícia. O grupo Vítimas Unidas confirmou a morte dizendo que ocorreu em Barcelona. Só que horas mais tarde o seu filho disse que a morte foi no Líbano, contradizendo o relato anterior.
O youtuber Felipe Netto disse em publicação nas redes sociais que era amigo de Sabrina, e que ela havia lhe ligado aos prantos um dia antes e dito que era perseguida. Relatou também que uma de suas testemunhas protegidas teve o abrigo invadido em Londres por matadores de aluguel. Felipe havia indicado Sabrina no fim do ano passado para agenciar a carreira da cantora infantil Melody, após ser noticiado na mídia os pais da menina desmentiram publicamente. Em 2015 Sabrina já tinha feito uma arrecadação de fundos sem a autorização dos pais de um paratleta chamado Gabriel Neris.

O filho de sabrina afirmou em entrevista para Época que nenhum autoridade teria acesso ao corpo da mãe “Nenhuma polícia, governo ou hospital atestará a morte de minha mãe. Não vou dar esse prazer para eles”, disse. Vários jornais noticiaram que a morte de Sabrina era um fato sem nenhuma prova concreta, mas alguns jornalistas passaram a duvidar. Em 2018 já havia sido noticiado que Sabrina havia morrido, o que ela negou mais tarde, e na ocasião do estupro que supostamente sofreu em 1997 também havia sido noticiado que ela havia morrido.

A embaixada brasileira no Líbano diz que desconhece a morte de Sabrina Bittencourt e o Itamaraty também não tem nenhuma informação.

É óbvio que o menino está escondendo alguma coisa. Mas restam muitas perguntas a serem respondidas. Como uma mulher teria enganado tanta gente a tanto tempo? Qual o nível de influência de Sabrina? Por que ela fingiria a sua morte? Em que tipo de crimes estaria envolvida?Ela ainda está viva? E a principal: Afinal, quem é Sabrina de Campos Bittencourt?

Fonte e direitos autorais: cropped-logotipo_agencia_dossiê3_eaecurioso

Allan Ribeiro

Minha história com o jornalismo tem uma trajetória que começou a ser escrita aos 11 anos de idade, quando comecei a representar o jornal O Diário da Manhã.
O fiz por gostar de ler e de estar informado. De entregar o jornal passei a enviar notícias da cidade a serem publicadas.
Ao visitar o jornal, em conversar com o senhor Batista Custódio, surgiu a possibilidade de publicar artigos sobre temas específicos. Foi o que fiz, e ver a repercussão só me incentivou.
Deste ponto passei a publicar também no O Popular. Como a volta do Novo Horizonte ao futebol profissional integrei a equipe da Rádio Xavantes, graças a Deus, naquela oportunidade o time subiu para a divisão de elite.

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